Um punhado de boas estreias
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Um punhado de boas estreias

Luiz Zanin Oricchio

15 de maio de 2014 | 17h45

 

 

 

Gata velha ainda mia [Brasil, 2014], de Rafael Primot (Polifilmes). Gênero: drama. Elenco: Regina Duarte, Bárbara Paz, Gilda Nomacce.

Interessante este Gata Velha Ainda Mia, de Rafael Primot. Em especial pelo “duelo” entre as atrizes Regina Duarte e Bárbara Paz, ambas convincentes.

Regina é Gloria, escritora veterana, tentando terminar novo romance e lutando com seu desfecho. Bárbara é Carol, repórter de uma revista, em busca de uma entrevista com a escritora. Temos aqui uma situação básica de embate entre personagens com algumas convergências e muitas divergências. Gerações distintas, uma envelhece, enquanto a outra vive o esplendor da juventude. Ambas escrevem, porém em níveis diversos. Haverá outros pontos em comum, mas convém deixar o espectador descobri-los por si só.

A opção de Primot é colocar as duas protagonistas em ambiente único – o apartamento da escritora, saturado de suvenires; em uma palavra, carregado de memória e de passado. A opção fechada concentra a ação, o tal duelo. Ressalta, por outro lado, o aspecto teatral. Gata Velha estaria, talvez, melhor num palco que na tela de um cinema. As únicas “externas” mostram a filmagem de uma mulher (na verdade duas) com um garotinho, provavelmente o filho. Tem textura de filme doméstico. E, como as personagens presentes são diferentes, e as duas cenas se intercalam em momentos diversos do filme, essas duas filmagens domésticas guardarão significado particular para a compreensão do enredo.

Há outras pistas soltas e referências ao mundo do cinema. A escritora Gloria não tem esse nome por acaso. “Dialoga” com Gloria Swanson de Crepúsculo dos Deuses, a diva caída, Norma Desmond, que ainda se acredita no estrelato. O clássico de Billy Wilder é um ensaio soturno sobre o predatório star system, a passagem do tempo, a velhice, e a (má) ideia de que ao se vampirizar os jovens pode-se retornar à mocidade. O filme tem ecos de outras matrizes como Tennessee Williams e Edward Albee, com referências muito claras às peças canônicas Quem Tem Medo de Virgínia Woolf e Gata em Teto de Zinco Quente.

Claro que todas essas piscadelas de olho culturais vêm embutidas no subtexto e não se prestam a qualquer forma de exibicionismo. Integram-se bem à narrativa e a enriquece para quem as reconhece mas não fazem falta aos que as ignoram. O texto flui bem. Quase sempre. Pode-se duvidar de que tenha sido boa ideia fazê-lo escorregar às vezes do refinamento cruel de alguns momentos ao sadismo explícito de outros. Mas este, supõe-se, seja o “touch” local de um bom filme de óbvia inspiração culta.

Cotação: BOM

Hotel Mekong, de Apichatpong Weerasethakul. Aqui temos o universo do tailandês, que já lhe rendeu uma Palma de Ouro em Cannes com Tio Boonmee – que Pode Recordar as Vidas Passadas. Uma relação quase transcendente com a natureza, universo onírico e fabular. Filme de esteta, ele que também é artista plástico. E de filósofo, que trabalha com o tema da reencarnação de maneira pouco usual. Não há unanimidade sobre esse cineasta. Mas, precisa haver?

Cotação: BOM

 

 

Olho nu [Brasil, 2014], de Joel Pizzini (Vitrine). Gênero: documentário. Elenco: Ney Matogrosso.

Um belo documentário de Joel Pizzini sobre Ney Matogrosso. Ou seria melhor dizer, “com” Ney, já que o cantor fica em cena o tempo todo, evita-se a presença de especialistas para “explicar” sua obra e é ela, obra, que se impõe. Considerando que uma vida também é parte dessa obra, e não apenas as músicas.

COTAÇÃO: BOM

Sob a pele [Under The Skin, Reino Unido, 2013], de Jonathan Glazer (Paris). Elenco: Scarlett Johansson, Paul Brannigan, Antonia Campbell-Hughes.

O filme concorreu ano passado em Veneza e leva a duvidosa palma de ter sido um dos mais vaiados de todos os tempos. E isso contando que tem a bela Scarlett Johansson, em pelo, em várias cenas. Quanto a Scarlett não pairam dúvidas. Já quanto ao filme, pode-se dizer que sua estética é pra lá de duvidosa. A bela moça vive uma alienígena, que se alimenta de seres humanos. Ela os caça na Escócia, entre caroneiros. Horror chique, maneirista a mais não poder. Aquele tipo de filme que não diz a que vem. Apesar do magnífico trunfo de que dispõe.

COTAÇÃO: RUIM

Praia do Futuro [Brasil/Alemanha, 2013], de Karim Aïnouz (California). Gênero: drama. Elenco: Wagner Moura, Clemens Schic, Sabine Timoteo. Belíssimo filme de Aïnouz (O Céu de Suely, entre outros), contando a história do salva-vidas Donato (Wagner Moura) que perde a parada para o mar e deixa morrer um turista alemão. Donato se aproxima de Konrad, amigo do afogado e decide viver na Alemanha. Filme sensorial, complexo, bem fotografado e com uma trilha deslumbrante. De quebra, as atuações intensas e corajosas de Moura e de Jesuíta Barbosa.

COTAÇÃO: ÓTIMO

Operários da bola [Brasil, 2014], de Virna Smith.

Esse documentário tem como personagens alguns operários que trabalharam na reconstrução do Estádio Mané Garrincha para a Copa. Eles disputam um torneio amador e provam um pouco do gosto de serem jogadores de futebol. Às vezes um tanto ingênuo, o doc tem o mérito de escolher personagens fascinantes, como Bala, o ex-jogador transformado em pedreiro e Canário, o juiz das partidas do torneio.

COTAÇÃO: REGULAR

 

 

A Recompensa  (Dom Hemingway, Reino Unido, 2013), de Richard Shepard, com Jude Law, Richard Grant, Demian Bichir. Anuncia-se o filme como tendo “um Jude Law como jamais se viu”. De fato, seu personagem, Dom Hemingway, é um bandidão até certo ponto repulsivo. As primeiras cenas são constrangedoras. Ele se proclamando o rei do mundo, de maneira progressiva e alucinada, até que…Bem, descubra. Não quero estragar a surpresa de ninguém. O fato é que Dom sai da cadeia, onde permaneceu de bico fechado durante 12 anos, para buscar a recompensa por seu silêncio. Carrega-se num tom exagerado, que tem sua graça em determinados momentos, mas que acaba por cansar.

Cotação: REGULAR

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