Birri, a emoção e a lucidez
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Birri, a emoção e a lucidez

Luiz Zanin Oricchio

09 Novembro 2006 | 16h03

birri

Fiquei muito contente quando meu amigo Jotabê Medeiros me contou que Fernando Birri havia sido agraciado com a comenda da Ordem do Mérito Cultural em Brasília. Nada mais merecido. Birri é uma figura incrível, fundador da escola de documentarismo de Santa Fé, na Argentina, autor de um dos filmes-chave do novo cinema latino-americano, Tiré-Die, sobre meninos pedintes do seu país. Birri tem alma andeja e rodou mundo, às vezes forçado pelas circunstâncias políticas do continente. Foi também um dos fundadores da Escuela de Cinema y Video de San Antonio de los Baños, em Cuba, onde estive com ele.

Na época, eu estava em Havana cobrindo o Festival de Cinema que lá se realiza a cada dezembro, e queria uma entrevista com Birri. Estávamos hospedados no mesmo hotel, o Habana Libre, o antigo Hilton de antes da revolução. Mas como ele não queria uma entrevista formal, daquelas com direito a gravador, bloquinho de notas e tudo o mais, resolvemos que conversaríamos um pouco todo dia, na hora do café da manhã. Seria mais informal, ele disse. E assim fizemos. Ao longo dos dez dias do festival, batemos papo todo dia de manhã, no refeitório do Habana Libre. Depois escrevia o que me lembrava e assim ia saindo a entrevista. Não sei se ficou boa. Sei que ficamos amigos.

Depois o Birri voltou para sua casa, acho que na Itália, em Roma. E passamos anos sem nos vermos ou nos vendo de longe, em outros festivais. Nos reencontramos este ano, em Fortaleza, no Cine Ceará, que o homenageou e passou seu filme mais recente, ZA-05, o Velho e o Novo, uma revisita ao melhor do cinema latino-americano e a Cesare Zavattini, papa do neo-realismo italiano.

Birri é aquele tipo raro de artista, uma cabeça que pensa politicamente sem esquecer a ternura jamais. Quando, faz alguns anos, apresentou seu Tire-Die no Cine Sul, o festival do cinema latino-americano do Rio, me deu uma lição que nunca esqueci. Disse que para aquele seu filme sobre a injustiça social queria “um público comovido, porém lúcido”. Emoção sim, mas com a razão acesa.

Salve, maestro.