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Billy Budd

Luiz Zanin Oricchio

01 de dezembro de 2011 | 08h33

Peter Ustinov (1921-2004) é mais conhecido como ator (lembra-se do Nero em Quo Vadis?), mas também dirigiu vários filmes. O mais notável deles, Billy Budd, tirado de um romance curto de Herman Melville, está sendo lançado pela Lume, em mais um belo trabalho de prospecção da distribuidora maranhense de filmes desconhecidos ou esquecidos.

Billy Budd (1962), aqui lançado no circuito comercial com o inacreditável título de O Vingador dos Mares, tem outra característica interessante, do ponto de vista da história do cinema – lança a carreira do ator Terence Stamp, que anos mais tarde seria celebrizado como o anjo exterminador de Teorema (1968), o clássico de Pier Paolo Pasolini. Neste filme, um emblema dos anos 60, Stamp era um desconhecido que, belo como um deus, visita e desestabiliza a família burguesa que o acolhe.

O curioso é que no filme de Ustinov, o papel de Stamp tem alguma semelhança com aquele que o celebrizaria no trabalho com Pasolini. Billy Budd é o “belo marujo”, uma figura de destaque, pela beleza e simpatia, no árduo navio de guerra em que é engajado de maneira compulsória. Billy trabalhava num navio mercante, mas a marinha inglesa, em guerra com a França, recrutava braços que lhe faltavam por toda parte. Assim, Billy sai do navio sintomaticamente chamado Direitos Humanos para um pesadelo náutico batizado Avenger.

Budd é, na precisa definição de Pauline Kael, um príncipe Michkin dos mares, alusão ao personagem de Dostoievsky em O Idiota. Tão bondoso e crente na bondade do seu semelhante que chega a ser parvo. Sua beleza física incomoda – o que vale a alusão homoerótica presente mais em Melville que em Ustinov, e a perturbação que causa em outros personagens. Em especial, no mestre d’armas do navio, o soturno Claggart (Robert Ryan), uma espécie de encarregado da ordem interna, um polícia dos marujos. O próprio Ustinov interpreta o Capitão Vere, homem que tenta ser justo e torna-se vítima da própria interpretação rígida da lei. Aliás, os perigos de se tomar a lei ao pé da letra (tema bastante atual, note-se) é um dos motivos centrais, senão “o” motivo principal de toda a história de Billy Budd.

Neste livro tardio, publicado apenas após a sua morte, Melville (1819-1891), como em outros romances e, em especial, em sua obra-prima, Moby Dick, toma o universo náutico como ponto de partida para uma reflexão aprofundada da condição humana. Dos desvãos da alma humana, em particular. Há uma ótima edição brasileira da CosacNaify, com tradução de Alexandre Hubner e textos de apoio analítico de  Bernardo Carvalho e um ensaio iluminador de Cesare Pavese, escrito em 1932.

Em sua versão para o cinema (baseada menos no livro que na adaptação teatral do texto, de Lewis O. Coxe e Robert H. Chapman), Ustinov faz a opção certa. Deixa digressões e meditações filosóficas de Melville apenas latentes, a meia-água, e concentra-se na ação (cinema é palavra, mas também movimento). Através dessa ação, realçada pela bela fotografia em preto e branco de Robert Krasker, essa meditação moral  aflora, em ato.

Billy Budd é personificação do Bem absoluto, que se torna intolerável, tanto quanto o Mal, depositado em Claggart. Como se a falível condição humana tolerasse apenas o bem e o mal relativos, entrelaçados em árdua convivência, e não na pureza dos seus polos contraditórios. Tanto o angelical Budd quanto o sádico Claggart aparecem como perturbadores da ordem mediana, que não tolera extremos. Essa é uma maneira de ver o filme. Como sempre, sob Melville, tem-se uma reflexão sobre o embate entre civilização e natureza, culpa e inocência.

A outra, não excludente, refere-se à obediência cega da lei, sem qualquer atenção para condições atenuantes ou variantes do contexto em que deve ser aplicada. O Capitão Vere é um homem com propensão para a justiça e para o bem, porém pressionado pelo pânico da indisciplina e do motim. De modo que a simpatia por Budd será tão natural quanto a aversão por Claggart. Na aplicação da lei, Vere também tentará ser justo. E a justiça, na sua interpretação, será a aplicação da lei de maneira textual. Essa será a sua tragédia pessoal e a de outros envolvidos no caso.

A força de Billy Budd, novela que foi considerada inconclusa pela viúva de Melville, reflete-se em sua permanência. Como obra literária em si, de final mais misterioso que inacabado, mas também nos filhotes que gerou. Além da peça e do filme de Ustinov, a história do “belo marujo” é ponto de partida para a ópera Billy Budd, de Benjamin Britten, com libreto assinado por E. M. Forster. O poeta italiano Salvatore Quasimodo escreveu um “Oratorio per Billy Budd”, musicado por G.F Ghedini.

(Caderno 2)

 

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