Biden e o mal-estar dos neoliberais
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Biden e o mal-estar dos neoliberais

Luiz Zanin Oricchio

05 de abril de 2021 | 10h10

Noto certo mal-estar brazuca em relação às propostas econômicas de Joe Biden. Destoando dos cânones neoliberais, o presidente democrata dos Estados Unidos apresentou plano de relançamento da economia norte-americana da ordem de trilhões de dólares. US$ 1,9 trilhão para turbinar a saída da pandemia e, mais a longo prazo, U$2,25 trilhões para implementar amplas reformas e enfrentar a concorrência da China, já em seus calcanhares. Uma dinheirama. 

A proposta – rooseveltiana – recoloca o Estado como grande indutor da economia. Tal tese parece uma traição. Ainda mais, vinda da pátria espiritual da grande maioria dos nossos economistas e analistas econômicos. Paulo Guedes deve estar se mordendo de raiva. 

A doutrina neoliberal, que se quer hegemônica e incontestável, diz sempre a mesma coisa. Se o país vai bem, privatizações, câmbio livre, equilíbrio fiscal. Se vai mal, privatizações, câmbio livre, equilíbrio fiscal. Despenca no abismo? Privatizações, câmbio livre, equilíbrio fiscal. O Estado deve ser mínimo e não perturbar a iniciativa privada. A “mão invisível”do mercado faz o serviço. 

Daí o incômodo com esse caminho que, se efetivado (há ainda as batalhas no Congresso), podem mudar não apenas a economia dos EUA, mas rachar um consenso estabelecido mais na base da ideologia que da lógica. 

Para quem acha que estou me metendo em seara alheia, já adianto que não vejo fronteiras entre áreas do pensamento. Me agrada que um nome tão fundamental da Economia quanto Thomas Piketty busque inspiração nas artes e na literatura para embasar suas teses sobre distribuição de renda. Para Marx, Balzac ensinava mais sobre a sociedade francesa do que os historiadores. E o próprio Balzac se dizia um observador atento dos cartórios parisienses, pelos quais passavam “os esgotos da sociedade”. Tudo se liga.