As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Beth Carvalho, a Mangueira e o Futebol

Luiz Zanin Oricchio

20 de fevereiro de 2007 | 20h14

Beth Carvalho foi enxotada de um carro alegórico da Mangueira. Ela, que é uma das figuras históricas da verde e rosa, havia pedido para sair no carro pois não tinha condições físicas de atravessar a avenida a pé. Mas um direto da escola entendeu que aquele não era o lugar dela. Além de Beth Carvalho, toda uma ala da comunidade mangueirense viu-se banida do desfile, sem maiores explicações. É gente do morro, ninguém iria dar pela falta dela.

A Mangueira não é a única escola a dar um chute de bico em sua história. Anos atrás, a Velha Guarda da Portela foi barrada para não causar atrasos no desfile.

As escolas hão de ter suas “razões”. Velhinhos são lentos e os desfiles tornaram-se cada vez mais acelerados. Além disso, há muito o carnaval tornou-se privilégio de endinheirados, turistas e celebridades. O povo, se quiser, que veja na TV. E desfile, caso ainda sobre espaço nas alas. Porque, afinal, quem são Beth Carvalho, os veteranos da Portela ou algumas anônimas passistas para o pessoal dos camarotes das cervejas? Não passam de intrusos nessa festa de arromba de siliconadas, elencos globais e celebridades, instantâneas ou não. Mudou o perfil do carnaval.

Como está mudando o perfil da outra arte genuinamente brasileira, o futebol. “Genuinamente” brasileira, eu disse? E já me corrijo, pois nem carnaval nem futebol foram inventados por estas plagas. A origem de ambos se perde na poeira dos tempos e das geografias. Mas aqui foram reinventados. Ganharam nova vida, estilo e força, numa espécie de criativa reinterpretação tropical. Antropofágica, diria Oswald de Andrade. O futebol tornou-se pentacampeão do mundo. O carnaval é vendido, nas agências de turismo, como o mais sensacional do planeta. Alguma qualidade deve ter.

Mas quando futebol e carnaval se tornaram, no Brasil, as forças que são, ou eram? Quando saíram das mãos (e pés) da elite e foram apropriados pelo povo simples, pelos negros, pela arraia-miúda da sociedade. No tempo em que o futebol era diversão privativa de branquinhos grã-finos não produziu nada de memorável. Foi preciso que trabalhadores e descamisados dele se apropriassem para que pudesse emergir o gênio brasileiro nos pés do mestiço Friedenreich, dos negros Domingos e Leônidas, nas gerações pioneiras que abrasileiraram o rígido jogo inglês.

Quanto ao carnaval, foi o binômio samba-morro que lhe deu a feição artística que hoje se conhece e se encontra em involução. Tivesse ficado nos bem comportados corsos e bailes de salão da belle époque, como surgiria gente como Carlos Cachaça, Nelson Cavaquinho, Cartola, para ficar apenas em três nomes da Estação Primeira de Mangueira?

É nessa reinvenção popular que futebol e carnaval no Brasil forjaram sua energia. Força que é, também, sua fraqueza na era do show biz em escala mundial.

O futebol, globalizado, vive da exportação dos seus talentos maiores. No plano interno, não falta quem proponha a elitização dos estádios como forma de financiar o espetáculo: “o futebol é para quem tem dinheiro para consumir no estádio”, dizem, com todas as letras. No carnaval, é o que se vê: a arquibancada pertence a quem pode pagar ou é suficientemente famoso para entrar na boca livre dos camarotes. Na passarela, o pessoal do morro comparece para dar uma cor local, mas apenas se não atrapalhar a presença de celebridades tão familiarizadas com o samba no pé como com a física quântica.

Carnaval e futebol, renascidos no Brasil como formas de afirmação da arte popular, vivem agora sua fase inversa. O povo está sendo desapropriado daquilo que criou e “convidado” a ver de longe a festa que outrora lhe pertencia. Pensando bem, o que mais se poderia esperar de um país campeão da exclusão social?

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.