Bergman, um dos maiores artistas do século
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Bergman, um dos maiores artistas do século

Luiz Zanin Oricchio

13 de junho de 2012 | 11h02

 

A questão a respeito de Bergman é que existe um cânone de sua obra já solidificado entre cinéfilos, mas esta tábua de referências é móvel. Digamos que o núcleo duro da obra seja formado por filmes como O Sétimo Selo, Morangos Silvestres, Persona, Gritos e Sussurros. Dificilmente se encontrará em outro artista centro de obra tão consistente quanto este formado por estes pilares. A angústia da morte, do envelhecimento, da identidade, e da sexualidade estão presentes aí como em praticamente nenhum outro cineasta.

Mas haverá bergmaníacos dispostos a apontar outros caminhos abertos pelo mestre. Walter Hugo Khouri, o diretor brasileiro que foi um dos primeiros a prestar atenção em Bergman no Brasil, gostava mais dos primeiros filmes, de [ITALIC]Noites de Circo, em especial. E o grande crítico francês André Bazin, pai espiritual da nouvelle vague, tinha especial predileção por Monika e o Desejo,um filme de 1952.

Jean-Luc Godard dizia que em Monika havia “o plano mais triste da história do cinema”. É quando Monika (Harriet Anderson), em um bar, na companhia de outro homem que já não é o seu amado Erik, olha longamente para a câmera, para bem dentro do olhar do espectador, contrariando uma regra básica do cinema clássico. Como se pedisse a todos nós indulgência, compreensão e simpatia. De fato, é triste de morrer, e lindo até o infinito como essa ode do amor jovem ali se encerra e ingressa no amor mais desencantado da maturidade.

Bergman se entranha em nosso imaginário por esses momentos sublimes – o olhar para a câmera de Monika, a troca de olhares entre Liv Ullmann e Ingrid Bergman, filha e mãe em Sonata de Outono, a face amargurada de Viktor Sjöström em Morangos Silvestres, a dignidade triste de Max Von Sydow em O Sétimo Selo, as irmãs vestidas de branco contra um fundo vermelho em Gritos e Sussurros… e essa relação poderia se estender por páginas e páginas. Porque cada um de nós gira em torno do cânone, ora o expande, ora o encurta e porque todos temos o “nosso” Bergman, que não é o mesmo para todas as fases da vida. À medida que envelhecemos, descobrimos facetas insuspeitadas nesses filmes, que, à maneira dos clássicos, nunca esgotam sua potencialidade de significado e emoção.

No entanto, o grande mérito da mostra do CCBB talvez seja nos mostrar um Bergman ainda um tanto oculto, como ofuscado por suas obras-primas. Apesar de toda a sua obra já estar disponível em DVD, falta visibilidade, por exemplo, para a primeira fase do seu trabalho, seus filmes iniciais. Bergman, antes de dirigir, era um diligente e sobrecarregado roteirista da Svenka Filmindustri. Trabalhava com um remador de Ben-Hur, e, não contente, mantinha laços com o teatro, o que, de resto, fez a vida inteira. Não se entende Bergman sem esse diálogo fundador com o teatro e com Strindberg, em especial.

Esse primeiro conjunto de filmes – Crise (1945), Chove em Nosso Amor (1946), Um Barco para a Índia (1947), Música na Noite (1947) e Porto (1948) só não é mais extraordinário porque tendemos a comparar o Bergman da juventude com o Bergman da maturidade – e isso é profundamente injusto. Não se comparam, em universalidade e abrangência às obras-primas posteriores, mas o que se pode dizer é que, de um autor como Bergman, é preciso conhecer tudo, dos esboços às obras-primas.

Há então, ao redor do núcleo, esses primeiros filmes, que tendem a cair no esquecimento, e os últimos, feitos para a TV, depois aportaram no cinema e jamais destoaram do resto do conjunto. Realizados depois de ele ter se “despedido”, com Fanny e Alexander, apareceram, para alívio de todos, obras como Depois do Ensaio e este extraordinário canto do cisne que é Saraband.

Vista no conjunto, a obra forma uma paisagem magnífica, que nos dá a certeza de que Bergman foi não apenas um dos grandes cineastas de todos os tempos, mas um dos maiores artistas do século do cinema, do porte de um Picasso, de um Stravinski, de um Miles Davis.

(Texto escrito para a matéria sobre a Mostra Bergman no Centro Cultural Banco do Brasil)

Programação completa

13 de Junho – Quarta-feira
10h – Quando as mulheres esperam, 107 min, 35mm, livre
16h – Faro 1979, 121 min, DVD, livre
18h – Um barco para a Índia, 98 min, 35mm, 14 anos
20h – Comerciais de sabonete Bris, 11 min, 35mm, livre + O sétimo selo, 96 min, 35mm, 16 anos

14 de Junho – Quinta-feira
10h – Para não falar de todas essas mulheres, 80 min, 35mm, 14 anos
16h – Os abençoados, 81 min, DVD, livre
18h – Sede de paixões, 84 min, 35mm, 14 anos
20h – O ovo da serpente, 119 min, 35mm, 12 anos 

15 de Junho – Sexta-feira
10h – Crise, 93 min, 35mm, 14 anos
16h – The Men and Bergman, 52 min, DVD, 14 anos + The Women and Bergman, 29 min, DVD, 14 anos
18h – Vergonha, 103 min, 35mm, 16 anos
20h – Morangos silvestres, 91 min, 35mm, livre 

16 de Junho –Sábado
15h – Imagens do playground, 29 min, DVD, livre + … Mas o cinema é minha amante, 66 min, DVD, livre
17h – Palestra Stig Bjorkman, 60 min, livre
19h – Cenas de um casamento, 155 min, 35mm, livre

17 de Junho – Domingo
10h – Noites de circo, 92 min, 35mm, 14 anos
16h – Persona 85 min, 35mm, 14 anos
18h – A hora do lobo, 90 min, 35mm, 16 anos
20h – Porto, 99 min, 35mm, 14 anos

20 de Junho – Quarta-feira

10h – “O Cinema de Ingmar Bergman”, ministrado por Sérgio Rizzo
16h – A ilha de Bergman, 83 min, DVD, livre
18h – Juventude, 95 min, 35mm, 14 anos
20h – O rosto de Karin, 14 min, 35mm, livre + A paixão de Ana, 101 min, 35mm, 16 anos

21 de Junho – Quinta-feira
10h – “O Cinema de Ingmar Bergman”, ministrado por Sérgio Rizzo
16h – Da vida das marionetes, 104 min, 35mm, 16 anos
18h – O olho do diabo, 87 min, 35mm, 14 anos
20h – A flauta mágica, 135 min, 35mm, livre

22 de Junho – Sexta-feira
10h – “O Cinema de Ingmar Bergman”, ministrado por Sérgio Rizzo
16h – Um barco para a Índia, 98 min, 35mm, 14 anos
18h – Daniel, 15 min, 35mm, livre + A fonte da donzela, 89 min, 35mm, 18 anos
20h – Persona 85 min, 35mm, 14 anos

23 de Junho – Sábado
10h – The Men and Bergman, 52 min, DVD, 14 anos + The Women and Bergman, 29 min, DVD, 14 anos
16h – O silêncio, 95 min, 35mm, 14 anos
18h – Comerciais de sabonete Bris, 11 min, 35mm, livre + Luz de inverno, 81 min, 35mm, livre
20h – Através de um espelho, 89 min, 35mm, 16 anos

24 de Junho – Domingo
10h – Faro 1969, 88 min, DVD, livre
16h – Face a face, 135 min, DVD, 18 anos
18h – Gritos e sussurros, 91 min, 35mm, livre
20h – Prisão, 78 min, 35mm, 14 anos

27 de Junho – Quarta-feira
10h – Sede de paixões, 84 min, 35mm, 14 anos
14h – Crise, 93 min, 35mm, 14 anos
16h – Vergonha, 103 min, 35mm, 16 anos
18h – Quando as mulheres esperam, 107 min, 35mm, livre
20h – Para não falar de todas essas mulheres, 80 min, 35mm, 14 anos

28 de Junho – Quinta-feira
16h – Porto, 99 min, 35mm, 14 anos
18h – O rito, 72 min, 35mm, 16 anos
19h30 – Cenas de um casamento, 155 min, 35mm, livre 

29 de Junho – Sexta-feira
10h – Prisão, 78 min, 35mm, 14 anos
16h – Faro 1979, 121 min, DVD, livre
18h – A hora do lobo, 90 min, 35mm, 16 anos
20h – O rosto de Karin, 14 min, 35mm, livre + Gritos e sussurros, 91 min, 35mm, livre

30 de Junho – Sábado
15h30 – Sorrisos de uma noite de amor, 108 min, 35mm, 14 anos
18h – Juventude, 95 min, 35mm, 14 anos
20h – O ovo da serpente, 119 min, 35mm, 12 anos

01 de Julho – Domingo
10h – Da vida das marionetes, 104 min, 35mm, 16 anos
16h – A ilha de Bergman, 83 min, DVD, livre
18h – A paixão de Ana, 101 min, 35mm, 16 anos
20h – Saraband, 110 min, DVD, livre

04 de Julho – Quarta-feira
10h – Música na noite, 88 min, 35mm, 14 anos
16h – Sonhos de mulheres, 87 min, 35mm, livre
18h – Uma lição de amor, 96 min, 35mm, 14 anos
20h – O silêncio, 95 min, 35mm, 14 anos

05 de Julho – Quinta-feira
10h – O rito, 72 min, 35mm, 16 anos
16h – Face a face, 135 min, DVD, 18 anos
18h – Depois do ensaio, 75 min, 35mm, livre
20h – Luz de inverno, 81 min, 35mm, livre

06 de Julho – Sexta-feira
10h – Chove sobre nosso amor, 95 min, 35mm, 16 anos
16h – O olho do diabo, 87 min, 35mm, 14 anos
18h – Monika e o desejo, 96 min, 35mm, 14 anos
20h – Através de um espelho, 89 min, 35mm, 16 anos

07 de Julho – Sábado
10h – Rumo à felicidade, 98 min, 35mm, 12 anos
15h – Fanny e Alexander, 188 min, 35mm, 14 anos
18h30 – O sétimo selo, 96 min, 35mm, 16 anos
20h30 – Sonata de outono, 93 min, 35mm, livre

08 de Julho – Domingo
10h – No limiar da vida, 84 min, 35mm, 14 anos
15h – O rosto, 100 min,  35mm, livre
17h30 – A flauta mágica, 135 min, 35mm, livre
20h – Na presença de um palhaço, 120 min, DVD, 14 anos


11 de Julho – Quarta-feira
16h– Faro 1969, 88 min, DVD, livre
18h – Chove sobre nosso amor, 95 min, 35mm, 16 anos
20h – Saraband, 110 min, DVD, livre

12 de Julho – Quinta-feira
10h – Música na noite, 88 min, 35mm, 14 anos
16h – No limiar da vida, 84 min, 35mm, 14 anos
18h – A fonte da donzela, 89 min, 35mm, 18 anos
20h – Noites de circo, 92 min, 35mm, 14 anos

13 de Julho – Sexta-feira
10h – O rosto, 100 min,  35mm, livre
16h – Rumo à felicidade, 98 min, 35mm, 12 anos
18h – Sonata de outono, 93 min, 35mm, livre
20h – Sorrisos de uma noite de amor, 108 min, 35mm, 14 anos

14 de Julho – Sábado
10h – Sonhos de mulheres, 87 min, 35mm, livre
16h – Na presença de um palhaço, 120 min, DVD, 14 anos
18h30 – Depois do ensaio, 75 min, 35mm, livre
20h – Monika e o desejo, 96 min, 35mm, 14 anos

15 de Julho – Domingo
10h – Uma lição de amor, 96 min, 35mm, 14 anos
16h – Fanny e Alexander, 188 min, 35mm, 14 anos
19h30 – Daniel, 15 min, 35mm, livre + Morangos silvestres, 91 min, 35mm, livre

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