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Bergman e o amor de gente moça

Luiz Zanin Oricchio

29 de junho de 2008 | 10h45

Quando se fala em Bergman em geral lembramos de filmes como Morangos Silvestres, Gritos e Sussurros, O Sétimo Selo, Persona, Fanny & Alexander. Os mais conhecidos, em suma. Mas há todo um território bergmaniano a explorar, além dessa área mais percorrida pela crítica e pelos cinéfilos. A Versátil tem se encarregado de trazer essas obras ao público, e lança agora o 4º volume da Coleção Bergman, uma caixa com três títulos, Juventude, Monika e o Desejo e O Rosto (R$ 123,90).

Os dois primeiros são muito próximos no tempo. Juventude é de 1950; Monika, de 1952. É curioso notar como são aparentados também nos títulos. No original, Juventude é Sommarleck, Jogos de Verão. Monika e o Desejo é Sommaren med Monika, Um Verão Com Monika. Ambos falam de amores jovens. E usam a palavra ‘verão’ que, para um nórdico, tem conotação particular. Em seu livro Imagens (Martins Fontes, 1996), Bergman diz que a chegada dessa estação é uma festa na Suécia. Mas depois, o sol opressivo que nunca se põe o deixa angustiado, como numa prisão.

O verão tem para ele esse duplo sentido, portanto. Como diz no livro, o enredo de Juventude, ou Jogos de Verão, é baseado em experiência de sua própria mocidade. Quando ele tinha 16 anos passava férias com os pais na ilha de Ornõ. Sentia-se solitário, mas encontrou uma garota de sua idade que morava numa ilha próxima. Tiveram um namoro intenso, que acabou com a chegada do outono. Mais tarde, usou a história como ponto de partida para a ficção.

Nessa reelaboração da experiência pessoal em ‘coisa’ artística, Bergman imagina uma bailarina, Marie, precocemente envelhecida aos 28 e que rememora um amor de juventude às vésperas da estréia do seu novo espetáculo. A história bóia entre os dois tempos. No ‘presente’, vemos a moça angustiada. No passado, a adolescente fogosa, brincalhona, cheia de vida. É interessante notar como tudo se expressa nos ritmos diferentes dessas duas épocas. Na mocidade, tudo corre, os gestos são bruscos, quase infantis; na maturidade, mesmo que precoce, eles se encolhem, ficam contidos, estudados. É a época da reflexão.

Pelo desenrolar da história, ficamos sabendo por que a moça é tão amarga e contida – é que ela já teve o seu bafejo de tragédia, de maneira muito precoce. E aqui entra Bergman, com sua técnica apurada e a capacidade de fazer não apenas atores e atrizes ‘falarem’ ao íntimo do espectador, mas também de tornar significativo tudo aquilo que os cerca, a natureza inclusive. O verão fala em Bergman. E fala pela água, com o brilho do sol em sua superfície. Esse sol, essa exuberância, sendo marcados por uma nota dissonante, um certo arrepio, que é a presença inquietante da morte e do mistério.

Essa exuberância natural também está presente em Monika e o Desejo, filme já um tanto mais complexo que o anterior. A história é a da paixão entre Henrik e Monika, papel da estupenda Harriet Andersson. Sim, a atriz é de uma sensualidade fora do comum. Mas sensual também é a câmera que a enfoca, como se fosse o olhar cheio de desejo de Henrik. O rapaz é um pequeno empregado e ela trabalha numa mercearia. Ambos têm problemas em casa. Resolvem fugir. E o fazem a bordo de um pequeno barco que pertence ao pai de Henrik. Embarcam numa espécie de cruzeiro erótico pelas ilhas de um arquipélago sueco. É um verão feliz que, como todo verão, um dia acaba.

A propósito, Carlos Heitor Cony tem um romance chamado Antes, o Verão (1964), que aproveita esse mote. Há, no verão feliz da vida e dos casais, esse primeiro vento frio que indica o outono próximo, metáfora rica, talvez universal. O livro de Cony foi adaptado para o cinema no filme dirigido por Gerson Tavares, com Norma Bengell e Jardel Filho nos papéis principais.

Em Monika e o Desejo temos esse percurso – a paixão jovem que arde como fogo e dura pouco, em especial porque logo deve ser confrontada com o princípio de realidade: filhos, a necessidade de ganhar o pão, a convivência prolongada. Esse filme de momentos líricos e doces tem também o seu lado pungente, mas nunca sentimental. E há nele o plano que Jean-Luc Godard um dia descreveu como ‘o mais triste da história do cinema’. É quando Harriet Andersson, num bar em companhia de outro homem que não o seu Henrik, olha longamente para a câmera. Quer dizer, para o espectador, um pedido (ou antes, uma exigência) para compartilharmos a sua sensação de desalento diante do que fez da sua vida. Godard tem razão. É um momento que vale o filme, mas este tem muito mais a apresentar. Sendo ainda um trabalho em escala pequena, já contém o grande Bergman e suas inquietações que, como Monika, ele faz questão de partilhar conosco.

FARSANTES

Outro é o registro de O Rosto, de 1958, protagonizado por Max von Sydow, um dos seus atores-fetiche. Aqui temos um Bergman farsesco, exprimindo-se através de um ‘magnetizador’, Vogler, personagem de Von Sydow. Filme de época, passa-se na Suécia do século 19. Vogler e sua trupe percorrem o país, exibindo-se para crédulos. Até que se apresentam na casa de pessoas que estão no extremo oposto da credulidade – aqueles que não têm fé em nada.

Há aqui todo um trabalho, em registro de comédia e às vezes de drama, das dúvidas que atormentam Bergman desde a juventude: o que existe por trás das aparências? Como distinguir o verdadeiro do falso, o real que se esconde debaixo do engodo? Há um diálogo interessante na casa burguesa onde a trupe se hospeda. Um dos personagens diz a Vogler e sua mulher (que viaja disfarçada de homem) que sente simpatia por eles. A mulher pergunta por que não deixá-los em paz, nesse caso. E o homem responde que não pode fazê-lo, pois eles representam tudo aquilo que ele mais detesta – o inexplicável.

O filme é teatral, mas isso para Bergman não representa problema. Certa vez escreveu: ‘Para mim, o cinema, antes de tudo, é teatro. Tudo é teatro, da sexualidade à nossa relação com Deus.’ Esse Deus, cujo silêncio era outra de suas obsessões, à parte o sexo e a morte.

(Caderno Cultura, 29/6/08)

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