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Ben Gazzara

Luiz Zanin Oricchio

13 de fevereiro de 2012 | 19h15

Talvez Crônica do Amor Louco, de Marco Ferreri, seja mesmo o filme mais importante da carreira de Ben Gazzara, morto sexta-feira aos 81 anos. Mas, dentre as mais de 130 produções (entre cinema e TV) que levaram seu nome nos créditos, há uma que o torna próximo ao Brasil. Em 1991, Gazzara aceitou o convite de Walter Hugo Khouri e veio a São Paulo participar de Forever, um dos últimos filmes do cineasta paulistano. Contracenou com a já consagrada Vera Fischer, uma italiana de nome Eva Grimaldi que havia trabalhado com Fellini em “Entrevista”, e uma estreante de olhos estupendos, Ana Paula Arósio.

Ben Gazzara, filho de imigrantes da Sicília, e batizado como Biagio Anthony Gazzara, nasceu em Nova York em 28 de agosto de 1930. Começou sua carreira artística em alto nível, na peça de Tennessee Williams, Gata em Teto de Zinco Quente, dirigida por ninguém menos que Elia Kazan. Foi no Actor’s Studio, sob Kazan, e aplicando o método Stanislawiski, que Gazzara definiu seu estilo de interpretação.

Ele o aplicou em dezenas de filmes e séries de TV de gângsteres, que exploravam seu naturalismo muito à vontade e seu tipo físico considerado propício para o gênero. Não se faz uma carreira notável com títulos como tidos por descartáveis.

Mas, ao mesmo tempo em que se aplicava em produções comerciais, Gazzara montava uma trajetória artisticamente das mais interessantes, como a série de filmes que fez em colaboração com seu amigo John Cassavetes, também ator e nome de ponta do cinema de autor novaiorquino. Entre esses, se incluem Os Maridos (1970) e o drama A Morte de um Bookmaker Chinês (1976).

Gazzara, ao longo de sua carreira, trabalhou com grandes diretores no cinema. Com Otto Preminger fez Anatomia de um Crime (1959). Mais recentemente, com os irmãos Coen, participou de O Grande Lebowski (1998); com Todd Solondz, fez o radical Felicidade (1998), e com Lars Von Trier, o brechtiano Dogville (2003).

Mas radicalidade mesmo ele a havia encontrado em estado puro na proposta do anárquico Marco Ferreri, diretor ideal para levar à tela um personagem como Charles Bukowski, o pai espiritual dos beatniks norte-americanos. Contracenando com a belíssima Ornela Muti, Gazarra compõe um tipo à beira da autodestruição, num filme de alta tensão erótica e emotiva. Fez muito sucesso no Brasil. E em todo mundo, diga-se. É um trabalho marcante, lembrado até hoje, embora lançado em 1981. O papel de Gazzara exigia muita entrega e um total descompromisso com os padrões morais médios da época.

Sua colaboração com Khouri fez parte da tentativa do diretor brasileiro de internacionalizar sua obra em momento muito difícil para o cinema nacional, no início da década de 1990. A ideia era trabalhar com atores de outras nacionalidades para que a produção pudesse circular em outros países. Não deu certo, mas o filme ficou. Nele, Gazzara faz o papel de um pai misterioso, cujos traços são procurados por sua filha (Ana Paula Arósio). É um dos últimos trabalhos de Khouri.

Gazzara dividiu sua carreira entre cinema, TV e teatro. Não ganhou nem chegou a ser indicado ao Oscar. Em compensação, teve três indicações para o Tony, o prêmio do teatro norte-americano. Foi casado três vezes e namorou mulheres bonitas, como Audrey Hepburn, quando trabalharam juntos na comédia Muito Riso e Muita Alegria, em 1981. Morreu de um câncer no pâncreas.

(Caderno 2)

 

 

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