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Bem me quer, mal me quer *

Luiz Zanin Oricchio

30 Abril 2013 | 10h47

Só tenho uma previsão para as semifinais do Campeonato Paulista: se o Santos jogar com o descaso mostrado na partida com o Palmeiras, será eliminado pelo Mogi Mirim. O outro jogo não tem favorito, a não ser que se considere o Corinthians, neste momento, mais sólido do que o do São Paulo. Mas é um clássico, portanto…

Em todo caso, se o Santos jogar com a seriedade que não apresentou sábado, é possível pensar em novo clássico na decisão do título paulista. Um campeonato mal-ajambrado, mal pensado, mas que, no fim, acaba sendo legal porque seus protagonistas são times de tradição, rivais históricos, com muitos títulos no currículo e grandes torcidas a ampará-los. E tem o Mogi, que é um bem-vindo “intruso” nessa briga de cachorro grande.

Estranhamente, a disputa dos jogos finais dos campeonatos estaduais, a participação iminente dos grandes times brasileiros no mata-mata da Libertadores, a falta de rumo da seleção – todos esses assuntos quentíssimos ficaram fora de foco em função das vaias recebidas por Neymar no Mineirão. Colunistas ilustres andaram se perguntando se não era mesmo chegada a hora de o rapaz embarcar para a Europa, já que a torcida começava a pegar-lhe no pé sem descanso.

Analisaram até o prejuízo que isso poderia trazer para seus contratos publicitários. Francamente, acho meio falta de assunto e apenas me ocupo de tudo isso porque esses comentários, parece, falam menos sobre Neymar do que sobre nós mesmos.

Por que a torcida estaria vaiando? Bem, primeiro, é apenas parte da torcida que vaia. Até onde vi, as “neymarzetes” estavam lá no estádio, tietando o craque como sempre. A torcida do Santos abriu faixas em apoio ao craque, domingo na Vila. Mas, enfim, há gente insatisfeita. Por quê? Será que ele estaria jogando muito mal? Não parece. Quando não marca gols, dá passes certeiros para os companheiros marcarem. Esforça-se. Saiu do jogo do Mineirão contundido e fez questão de jogar contra o Palmeiras, mesmo usando uma proteção na coxa. Por que deveríamos nos queixar dele, ou nos decepcionarmos? Francamente não existe lógica nessa campanha contra o rapaz.

Ou existe talvez uma outra lógica, menos confessável. A mesma lógica que faz o público antipatizar com um ídolo a ponto de transformar seu amor em ódio. Poderíamos chamá-la de “lógica de Mark Chapman”, nome do assassino de John Lennon. Ou seja, a irresistível tentação de destruir o ídolo, quando ele parece atingir um ponto inalcançável para as pessoas comuns.

Neymar ganha demais. Aparece demais, fala-se demais nele. Tem carros demais, mulheres demais. Exerce um fascínio que o torna peça preciosa para a publicidade. Quando isso vira o fio, gera também uma montanha de ressentimento. Vaiar o ídolo, reduzi-lo a pó parece uma maneira (mesquinha, é verdade) de reduzi-lo a uma dimensão mais humana, mais mensurável por todos nós, “normais”.

Essa figura do ressentimento talvez seja ainda mais aguda num país com sérios problemas de autoestima, como o Brasil. Negar esse sentimento de inferioridade é tapar o sol com a peneira. Pensamos que o outro é sempre melhor do que nós. Para mostrar que somos bons, só provando lá fora. O êxito interno, além de nada querer dizer, pode gerar uma situação de estranheza.

Tom Jobim dizia que o brasileiro perdoa tudo, menos o sucesso. O êxito é tomado como insulto pessoal. É uma anomalia que alguém cobiçado no exterior opte por ficar aqui. Acaba gerando desconfiança (será tão bom assim?) e, no final, hostilidade.

Mas não é apenas isso. Se, em seu lugar, já teríamos ido embora há muito tempo, quem ele pensa que é teimando em ficar? Melhor do que nós? Vamos então vaiá-lo. Meus amigos, o Brasil talvez precise de uns mil anos de divã para melhorar sua cabeça.

* Coluna publicada no Esportes do Estadão

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