As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Belmonte e Bressane

Luiz Zanin Oricchio

24 de novembro de 2007 | 11h17

BRASÍLIA

Gostei muito de Meu Mundo em Perigo, de José Eduardo Belmonte, que me parece um cineasta em constante evolução. Nessa trama de duas famílias disfuncionais, cujas histórias se cruzam a partir de um acidente automobilístico, há um sentido agudo do “fazer” cinematográfico, de como as coisas, afinal, se revolvem é no domínio da linguagem proposta e não na escolha de temas.

De um lado, há um pai, separado, que acaba de perder a guarda do filho para a ex, entra em desespero, e acaba se consolando com uma deusa que encontra pelas ruas. Só que ela é tão ou mais problemático do que ele. Do outro lado, há um velho pai que atormenta o filho e assedia sua mulher.

Pelo que se vê, o que interessa são as relações complicadas entre seres humanos e mais ainda nessa condição extrema, que é relacionamento entre pais e filhos. Sempre pensamos na oposição que parece clássica entre casa e rua. Belmonte recoloca o problema: “A família definitivamente não é um refúgio seguro”, diz. O filme trabalha com um visual instigante, uma trilha sonora que se acrescenta como elemento significante (e não como mera redundância) e uma intensidade de interpretação digna de nota.

“Senti que teria de ficar próximo do rosto dos personagens”, diz Belmonte. Em boa medida, é um filme de closes. Ah, sim, o título Meu Mundo em Perigo foi sugerido pelo filho do cineasta.

O filme de Bressane eu já tinha visto em Veneza. Foi ótimo rever, porque belos filmes ganham com a segunda leitura. Pode-se prestar mais atenção aos detalhes e, no caso de Cleópatra, é fundamental notar que o filme é estruturado como se fosse uma série de pinturas. Plasticamente é impecável, mas não se trata daquela beleza “bonitinha”, se me permitem esse abuso de linguagem.

Os elementos pictóricos entram na composição de um Egito recriado no Rio de Janeiro, no qual não faltam músicas nacionais, como Há um Deus, de Lupicínio Rodrigues, na voz de Dalva de Oliveira, e Felicidade, de René Bittencourt, na voz de Noel Rosa. Dessa forma, Bressane parece buscar certa universalidade na lenda de Cleópatra, um mito no qual erotismo e busca pelo poder estão intimamente interligados.

Um belíssimo filme, de um dos poucos cineastas brasileiros que construíram um estilo próprio, pessoal, inconfundível. E nele persevera, filme após filme. Se é compreendido ou não, essa é uma outra história.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.