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Belas Artes: o templo revive

Luiz Zanin Oricchio

17 Janeiro 2014 | 20h17

 

Como Fênix, parece que o Belas Artes vai renascer das cinzas. Patrocinado agora pela Caixa Econômica Federal, volta à atividade sob a batuta de André Sturm, atual diretor do Museu da Imagem e do Som, e que levou o Belas Artes com galhardia até a sua última sessão, três anos atrás.

A se confirmar, a notícia não poderia ser melhor para os que gostam do cinema dito de arte em São Paulo. Enquanto funcionou, o Belas Artes foi um templo do cinema que foge à banalidade dos filmões de Hollywood, principal alvo das salas comerciais dos shopping centers.

Voltará a ser, sob o comando de Sturm, mais um dos poucos espaços de referência dessa cidade cinéfila que é São Paulo, mas que, paradoxalmente, dispõe de poucas salas alternativas.

Além disso, o Belas Artes tem grande tradição por trás. Durante muitos anos foi sinônimo de cinema de qualidade, em suas várias fases. Foi baluarte do cinema francês quando era da Gaumont. Depois, continuou a programar filmes de bom nível e, já no final, cultivou o hábito de manter obras de qualidade em cartaz, dando tempo para que elas acontecessem no boca a boca dos interessados. Por exemplo, Medos Privados em Lugares Públicos, de Alain Resnais, ficou dois anos (!) em cartaz no Belas Artes. E onde mais poderia ter estabelecido essa marca, neste tempo de reciclagem rápida, em que obras de arte são tratadas como salsichas ou sabonetes?

Para a minha geração havia uma certeza: a gente podia ir ao Belas Artes sem conferir a programação porque sabia que lá iria encontrar algum filme no mínimo interessante. Vi lá A Idade da Terra, de Glauber Rocha, numa sessão tumultuada e histórica. Vi lá, pela primeira vez, E la Nave Va, de Federico Fellini. Assisti a filmes de Godard, de Chabrol, de Visconti, de Pasolini. Enfim, minha geração deve muito de sua formação cinéfila a este cinema que vai agora reabrir.

Tinha outra coisa. O programa completo da moçada (nós…) era assim: assistir a um filme do Belas Artes e discuti-lo depois no Bar Riviera, que ficava em frente, do outro lado da av. da Consolação. Bebíamos e conversámos de cinema, mas não apenas, porque a política entrava em campo junto com a estética e as discussões iam madrugada adentro. Aquele era um point da vida cultural paulistana, que não merecia acabar como acabou, vítima do descaso, da especulação, da ganância, da violência da cidade, etc.

Pois bem, o Bar Riviera voltou e está lá, aberto. Não vi como ficou. Agora, chega essa boa notícia do Belas Artes. Se tudo der certo, a cidade recupera um ponto de encontro, um verdadeiro circuito cultural formado pelo cinema e pelo bar para onde escoa o público depois da sessão. Não custa sonhar. Com essa vitória, a cidade humaniza-se um pouco.

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