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Belas Artes fecha as portas?

Luiz Zanin Oricchio

06 de janeiro de 2011 | 12h27

A confirmar matéria de hoje na Ilustrada, o Cine Belas Artes está com os dias contados. O dono pediu o imóvel de volta e, em lugar de Alain Resnais, teremos mais uma loja na cidade. Parece não haver mais jeito e, depois de várias crises, o velho Belas Artes deixará de existir, assim como deixou de existir o Bar Riviera, que ficava do outro lado da Consolação e onde íamos discutir os filmes que acabáramos de ver no cinema.

Não será, claro, o único espaço tradicional que fecha as portas. O tempo da cidade já devorou outras tantas salas maravilhosas como o Cine Marrocos e o Cine Metro, para ficar apenas em duas. Cinemas de rua parecem mesmo não ter mais vez no mundo de hoje. Sobram poucos: o Espaço Unibanco da Augusta, o Cine Marabá e mais alguns. São exceções. A regra é que os cinemas se abriguem no shopping, esse templo da vida contemporânea.

Fosse o Belas Artes um cinema como outros não haveria tanto motivo para lamentação. Mas não é. Sob a direção de André Sturm, é dos poucos espaços em que os filmes têm tempo para permanecer e alcançar seu público. É lá que Medos Privados em Lugares Públicos, de Alain Resnais, está há anos em cartaz. É lá que filmes nacionais encontram espaço e permanecem, mesmo quando não fazem a média de espectadores das salas. André, que também é cineasta, tem esse amor diferenciado pelos filmes. Espera-se que encontre, em outro ponto da cidade, lugar para exercer esse respeito. E também espero que detenha o direito da marca Belas Artes para que, ao menos ela, permaneça nesta cidade que se autodestrói sem parar. Teríamos então um outro Cine Belas artes, em ponto diferente.

Quanto ao Belas Artes original, ficam as histórias. Era aquele lugar para onde íamos sem saber da programação, pois sabíamos que haveria filmes de qualidade para assistir. Foi lá que vi, pela primeira vez, vários Fellini e Antonioni novinhos em folha. Foi lá que assisti ao polêmico A Idade da Terra e ouvi alguém gritar da platéia, sob risos gerais: “Eu não sou obrigado a gostar do Glauber Rocha!” Depois descobri que o autor do brado retumbante era um grande amigo meu. Casos do passado.

Na verdade, o desfecho do Belas Artes não me surpreende em nada. Como sou paulistano da gema, conheço a maneira como São Paulo trata sua história e sua tradição. Aos pontapés. Talvez o anúncio do fim sirva para despertar o brio dos paulistanos e alguma coisa seja feita para salvar o cinema.

Não confio muito nisso.

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