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Bel Ami, sexo para subir na vida

Luiz Zanin Oricchio

04 de agosto de 2012 | 16h08

A direção é bastante convencional, o ator não dá conta do papel, mas a história é tão envolvente que, feitas as contas, vale a pena ver o filme. Estamos falando de Bel Ami, dirigido pela dupla britânica Declan Donnellan e Nick Ormerod, com Robert Pattinson no papel título e baseado no romance do francês Guy de Maupassant, publicado em 1885. Ah, sim, você tem também de vencer a resistência ao fato que na Paris do século 19 o inglês seja o idioma oficial.

E então será fácil embarcar na história de Georges Duroy (Pattison), um pobretão praticante do alpinismo social graças aos seus dotes físicos e à impressão que causa às damas. Duroy começa no jornalismo mas é a cama que elege seu  campo de batalha preferencial. Escolhe as mulheres certas, que lhe permitem franquear o as portas dos melhores salões. Assim prossegue a história, que  as caras e bocas de Pattinson e a direção acadêmica não conseguem arruinar.

É a força do texto. Os muito formalistas que me perdoem, mas o enredo ainda é fundamental. E Maupassant, naquele que é um dos seus grandes romances, trabalha como mestre para esmiuçar as hipocrisias da estratificada sociedade parisiense.  Não são apenas as mulheres que usam a sedução para melhor se mover pelas frestas dessa sociedade; os homens fazem o mesmo. Pelo menos os que possuem atrativos para empregá-los como moeda de troca na ascensão social. Há algo de cômico nisso tudo e também de trágico, pois a beleza, se sabe, é moeda poderosa, mas logo perde o seu valor de face – literalmente.

Com isso tudo nas mãos, Donnellan e Ormerod poderiam ter feito um filmaço, caso ousassem na direção como Maupassant ousou ao escrever. Mas talvez fosse pedir demais de um primeiro filme e de uma produção que traz como atrativo um astro da saga juvenil Crepúsculo em novo e complexo papel, muito acima de suas possibilidades dramáticas. A opção foi ficar no jogo seguro, procedendo conforme mandam as regras da academia, o que não se torna monótono porque não existe monotonia que resista a Maupassant.

Desse modo, Bel Am consegue, em sua viagem ao século 19, trazer à tona temas  bastante familiares. Do tipo: a imprensa sensacionalista como fonte de chantagem e o alpinismo social, atividade que, risível, não deixa de produzir vítimas entre os mais frágeis. Um arrivista como Duroy pensa que chegou ao topo por conseguir controlar algumas variáveis, mas  existem fatos que escapam à sua compreensão e controle. Por isso, determinadas barreiras sociais são intransponíveis, mesmo para o mais dotado dos alpinistas. Essa é a chave de uma sociedade baseada na aparência, mas que funciona segundo códigos acessíveis apenas a iniciados e bem nascidos. Estamos ou não estamos no mundo contemporâneo?

(Caderno 2)