Beijo no Asfalto reloaded
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Beijo no Asfalto reloaded

Nova versão da peça de Nelson Rodrigues, dirigida por Murilo Benício, surpreende pela criatividade

Luiz Zanin Oricchio

12 Dezembro 2018 | 11h06

Lázaro Ramos

Um dos textos mais conhecidos de Nelson Rodrigues – O Beijo no Asfalto – ganha tratamento inspirado no primeiro longa de Murilo Benício como diretor. A ideia de partida é montar uma espécie de mesa redonda, em torno do qual se reúnem um diretor de teatro, Amir Haddad, e atores que encarnarão os diferentes papeis no drama suburbano de Nelson – feras como Fernanda Montenegro, Otávio Müller, Stenio Garcia e outros.

A partir de reflexões do grupo, as cenas vão entrando na composição do filme. Mesmo aqui o recurso de distanciamento é usado. Vêem-se, por exemplo, técnicos que seguram microfones para captar as vozes dos intérpretes. A insistência nesse processo antiilusionista serve para expor o artifício e mostrar que uma peça (ou um filme) não é a própria realidade, mas a representação, e portanto, a interpretação da realidade.

O enredo é amplamente conhecido. Arandir (Lázaro Ramos) presencia um atropelamento e, atendendo a um pedido do moribundo, dá-lhe um beijo na boca. O ato de piedade destruirá sua vida.

A peça é uma imersão profunda de Nelson Rodrigues na mentalidade do subúrbio, feita de preconceitos, falso moralismo e tagarelice letal. Na verdade, o comentário sobre o ser suburbano vale para a sociedade como um todo, em especial para as chamadas elites, que se creem num pedestal, mas que participam do atraso geral da nação brasileira. O momento atual o demonstra com toda a clareza. E reacende a questão da relevância contemporânea da obra de Nelson Rodrigues, para muitos confinada num certo Brasil dos anos 1940 e 1950 e que teria pouco a dizer sobre a modernidade.

Ok, muita coisa mudou, mas Nelson percebia como poucos os fundamentos da nossa arquitetura de atraso, moralista e hipócrita, que ganha novas formas mas mantém-se intacta através dos tempos.

Filmado em preto e branco (por Walter Carvalho), o filme evoca aquele tempo passado. Nos cenários, mas também na inflexão, nas vozes e na terminologia. Certas expressões como “é batata” foram engolidas pelo tempo, mas é difícil conceber Nelson Rodrigues sem elas, e sem aquela aura depravada das relações familiares e do não menos doentio relacionamento entre o Estado e a imprensa marrom.

Esta, aliás, celebrizou um personagem como o repórter sensacionalista Amado Ribeiro, aqui interpretado magistralmente por Otávio Müller. Numa passagem deliciosa, Fernanda Montenegro lembra que Amado existiu de fato e ia a ensaios da peça de Nelson para conferir o que o dramaturgo havia feito do seu personagem. Cioso da fama, Amado queixava-se de que Nelson suavizava seu personagem: “Eu era pior, muito pior”, suspirava.

Em O Beijo do Asfalto, Amado Ribeiro, acumpliciado com o delegado, induz a opinião pública a tratar Arandir (Lázaro Ramos) primeiro como homossexual e depois como assassino. Arandir é casado e a esposa (Débora Falabella) entra em crise. Apenas a cunhada o conforta, mas por razões um tanto tortuosas. O sogro, Aprígio (Stênio Garcia), não o suporta e sequer pronuncia seu nome, mas há também muita ambivalência nesse sentimento.  

Como diretor, Murilo Benício dá uma repaginada nesse complexo de relações turvas que são parte de uma mentalidade de país. O enlace com os tempos presentes é feito em mais de um momento e explicitado pela notável Fernanda Montenegro que, ao evocar perseguições do tempo da ditadura conclui: “Sobrevivemos àquele tempo. Sobreviveremos a este”.

Sim, diante do Estado autoritário só resta exercer a arte da sobrevivência, a forma mais persistente da resistência.