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Beethoven, Beethoven

Luiz Zanin Oricchio

28 de dezembro de 2006 | 12h54

Fui ontem assistir a O Segredo de Beethoven, de Agnieszka Holland. Esperava pouco e mesmo assim encontrei momentos de encantamento. Claro que ele é cheio de clichês, como costumam ser as cinebiografias de gênios, da música ou não. Mas o Ed Harris que vive o compositor alemão até que dá credibilidade ao próprio, mesmo falando inglês. E, diga-se de passagem, o filme não trata da vida inteira de Beethoven, mas apenas de sua fase final, do seu último ano, envolvido com a construção da catedral sonora da Nona Sinfonia e a abstração dos últimos quartetos de cordas. Para “dialogar” com o mestre, Holland cria uma figura ficcional, a copista Anna Holtz, que teria ajudado o compositor nesta última fase.

Alguns outros fatos conferem com a biografia conhecida do mestre: o final de vida irascível, misógino, atormentado pela surdez e explorado por um sobrinho estróina, Karl. Eis aí o material interessante: o criador de uma música sublime habitando o corpo de um grosseirão infeliz. E também o aparente passo no vazio de Beethoven, quando apresenta uma música que ninguém naquele momento entende – a necessidade de transcender o belo, incorporando o feio e o grotesco na forma musical. Na expressão dos sentimentos humanos caberiam essas duas vertentes, e Beethoven achou lugar para ambas – para consternação dos fãs, em sua época. Musicalmente, o filme também apresenta um achado, quando Anna Holtz “intui” a presença de um acorde menor (quando o acorde maior seria “lógico”), criador de um suspense que antecede a luz do coro final da Nona.

Os “momentos” altos: quando Anna ajuda um Beethoven surdo a reger na estréia da Nona Sinfonia. Momento que, convenhamos, tem tanto de sublime quanto de brega. Mas sob a música da Nona, o nosso espírito crítico fica obliterado. O outro: quando o compositor pede à copista que o lave e esse banho tem o valor do ato sexual que não acontece entre os dois. Pelo menos na forma convencional.

De resto, o filme nos inspira a ouvir cada vez mais a música de Beethoven, literalmente inesgotável. E correr para sua biografia mais crível, Beethoven, A Vida e a Música , de Lewis Lockwood, editado aqui pela Códex e elogiada por ninguém menos do que Charles Rosen, o maior crítico musical vivo. Já estou encomendando a minha hoje mesmo. “Beethoviano” fanático desde criança, por via do meu avô e meu pai, ambos devotos do compositor, li muito cedo a biografia escrita por Emil Ludwig, que tende a romancear (no mau sentido) a história do compositor. Mesmo assim, esse livro teve valor formativo em minha vida, numa época em que a música me parecia a coisa mais empolgante do mundo. De qualquer forma, cresci e vivi acompanhado de Beethoven, existência afora. Ouvi várias vezes as nove sinfonias, ao vivo, assim como os ciclos que se costumavam fazer das 32 sonatas para piano. Os quartetos foram um aprendizado posterior e demorei para me acostumar ao ar mais rarefeito das últimas composições e à estranheza formal da Grande Fuga. São obstáculos a serem transpostos. E, uma vez ultrapassados, abrem para o ouvinte um espaço musical inusitado, magnífico, às vezes parecido a uma paisagem lunar.

São momentos muito altos do espírito humano, daí a dificuldade do cinema, ou da literatura, os captarem. Hegel dizia que a música era a mais abstrata das artes, e tinha razão como sempre. Mesmo assim, às vezes a literatura chega lá, perto dela. Para não me estender muito nesta nota, lembro apenas de Doutor Fausto, de Thomas Mann, um romance inteiramente dedicado à música e inspirado em parte em passagens da vida de Arnold Schoenberg, criador do dodecafonismo. Mas há um momento magnífico do livro, em que se analisa a sonata Opus 111 de Beethoven para piano. E se conclui que, como Beethoven, nessa peça, havia chegado ao desenvolvimento completo da forma sonata, no mesmo movimento a forma se destruíra, por obsoleta.

É isso que o filme de Agnieszka Holland insinua – Beethoven como ponte entre a música romântica e a música do presente. Um demolidor, que levava as formas musicais do seu tempo à últimas conseqüências e por isso as implodia, por dentro, com perdão da redundância. Ao mesmo tempo, desses magníficos escombros, saía o material de construção para o que viria depois. Esse movimento, de esgotamento de formas e preparação para novas linguagens num campo minado, é o que define o gênio. O filme de Holland passa por esse tema de raspão. Mas tem, pelo menos, o mérito de não ignorá-lo.

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