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Baudrillard

Luiz Zanin Oricchio

07 Março 2007 | 10h12

Soube aqui da morte do filósofo francês Jean Baudrillard. Crítico da sociedade do consumo e estudioso do simulacro, Baudrillard corre o risco de entrar para a história como o pensador que inspirou a série Matrix, dos irmãos Wachowski. Na época, os diretores tentaram dar aos filmes esse verniz intelectual, mas Baudrillard os desmentiu: “Se eles se inspiraram na minha obra, não entenderam uma única linha dela”, disse numa entrevista ao Libération.

O fato é que Baudrillard teve uma carreira polêmica, avessa a clichês intelectuais. Era de direita ou de esquerda? Se, por um lado, denunciava a era do consumo e do simulacro, por outro se referia aos Estados Unidos como “a utopia realizada”. Externou também opiniões polêmicas sobre o 11 de setembro e a invasão do Iraque. Tentou reabilitar o ultra conservador Joseph De Maistre e, ao mesmo tempo, foi quem melhor denunciou a “perda de realidade” do mundo moderno em favor do simulacro. Vivemos entre sombras, como na caverna de Platão – e essa idéia fácil deve ter ocorrido aos Wachowski quando bolaram Matrix.

Bem, Baudrillard ia muito além disso e foi um pensador complexo. Quando muitos dos seus pares se refugiaram nas tranqüilas reinterpretações da filosofia passada, ele teve a coragem de mergulhar nos impasses do presente, com suas ambigüidades e incertezas. Deve ser relido e estudado. Em especial por suas obras maiores O Sistema dos Objetos e A Sociedade do Consumo. Baudrillard escreveu também suas memórias, Cool Memories, que saíram em volumes separados. Estão disponíveis no Brasil. Guardo dele um pensamento muito agudo, sedutor por sua radicalidade, mas pessimista a ponto de conduzir ao imobilismo. Na minha maneira de ver, sempre que alguém proclama a falta absoluta de saídas, não está levando em conta a História e a sua imprevisibilidade. Acho que a falta dessa dimensão histórica podia esterilizar um pouco o pensamento de Baudrillard, mas é preciso reler e meditar.