Batman, belo, suntuoso e muito reacionário
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Batman, belo, suntuoso e muito reacionário

Luiz Zanin Oricchio

27 Julho 2012 | 10h10

 

 

Ninguém pode negar a grandiosidade do espetáculo. Suntuoso, impactante, nas imagens e no som. Num cinema Imax, Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge, captado em película de 70 mm, fornece o que de mais impressionante pode haver num espetáculo audiovisual. A sala treme com o ruído; as cenas de altura e velocidade provocam vertigens. Somos colocados numa montanha-russa emocional. Grande espetáculo.

Mas espetáculo de quê? Da morte e da destruição, sem dúvida. Batman, essa última lâmina do tríptico de Christopher Nolan, é uma das mais altas celebrações do instinto de morte a que o cinema chegou. Estamos calvos de saber que não está sozinho nisso. É toda uma tendência, e não recente, essa notável obsessão em desmantelar cidades inteiras, pois obviamente Gotham City, apesar de imaginária, não é uma abstração. Se pensarmos nesses filmes, a destruição real das Torres Gêmeas em Nova York vira um espetáculo menor, insípido até. Enfim, o filme expressa, de forma grandiosa, esse turbulento desejo de morrer que existe na potência, e o faz de forma nada reflexiva, como pura catarse.

Seria inútil, e até abusivo, ligar o filme ao atirador do Colorado. Mas, sem dúvida, são manifestações – bem distintas, é verdade, e talvez até opostas – de uma violência de fundo brutal e disseminada pela sociedade, um instinto de morte presente no inconsciente (mas cada vez mais próximo da superfície) da América. Basta lembrar que, depois do crime no cinema, a venda de armas, ao invés de cair, cresceu 40% no Colorado. Quer prova maior da presença de um impulso social suicida? Esse fecho da trilogia pode ser considerado uma suma dos “disaster movies”, metáfora dessa atração pelo abismo de que falava Nietzsche. Mas é óbvio que não se reduz a isso. Contém outras implicações.

Há o vilão, Bane (Tom Hardy), com sua pregação socialista primária e tingida de um ressentimento cruel. Como não ver aí o subtexto político do filme, marcado por um reacionarismo anedótico, um republicanismo dos mais tacanhos, defendendo um sistema em crise? Quer uma melhor personificação do mal do que este ser que faz a apologia do ódio e da igualdade na mesma frase? Claro que Christopher Nolan negará essa intenção em eventuais entrevistas. Mas de que servem entrevistas, afinal, senão para ajudar a promover comercialmente os filmes? Interessa o que os próprios filmes dizem, ou calam, e não as palavras da publicidade.

Nesse sentido, o terceiro filme é uma regressão em relação ao segundo, cuja complexidade moral talvez o coloque como o ponto alto da trilogia. Se a intensidade técnica agora atinge o auge, a sofisticação mental recua e encolhe em favor de ideias mais simplistas. A ambivalência humana, que tornava difícil distinguir um herói de um vilão, cede aqui espaço para o estabelecimento de limites mais seguros. Se o filme todo é, em aparência, um trabalho com a treva e com o subsolo, sua aspiração maior é a luz, a clareza, a esperança normalizadora e enganosa.