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Bastidores da história brasileira

Luiz Zanin Oricchio

18 de março de 2010 | 10h27

Acabo de ouvir pela Rádio Eldorado uma interessante entrevista com Rubens Ricupero, que está lançando seu livro Diário de Bordo, pela Imprensa Oficial.

Nele, Ricupero narra as viagens que fez com Tancredo Neves, às vésperas de sua posse (que acabou não se concretizando) como primeiro presidente civil após a ditadura.

Ricupero era então assessor de Tancredo e testemunhou muitos encontros importantes do presidente eleito com autoridades mundiais. Narra a reunião com o então presidente americano Ronald Reagan, que teria sido muito frustrante, pois Reagan alinhava-se totalmente com os banqueiros e, na época, o Brasil tinha em sua dívida externa um dos seus principais problemas econômicos. Talvez o principal.

Ricupero diz que pôde reunir todo esse material que redundou no livro porque sempre manteve o hábito de anotar tudo o que de importante acontecia em uma agenda. “Enquanto os outros dormiam nos voos, eu escrevia”, relata. E assim pode hoje dar testemunho de histórias pouco conhecidas da Nova República, que talvez nos ajudem a compreender melhor o período.

Mais um exemplo: outro dia, enquanto descia para Santos, ouvia na rádio CBN o programa Fim de Expediente, que estava entrevistando o ex-ministro da Economia Mailson da Nóbrega. Contou uma história incrível. Disse que trabalhava no Ministério quando seu nome foi cogitado para substituir o ministro Bresser-Pereira. Sarney, que assumira a presidência após a morte de Tancredo, perguntou se ele, Mailson, teria problemas em dar um pulo na sede da Globo, pois o dr. Roberto Marinho queria vê-lo. Mailson respondeu que não havia problema algum. E foi. Conta que Marinho o recebeu e deu início a uma longa entrevista. Queria saber o que Mailson pensava disto e daquilo. “Senti-me sabatinado”, disse Mailson no programa. E estava sendo mesmo testado.

Ao final da entrevista, Mailson da Nóbrega voltou ao Ministério e foi assim saudado pela secretária: “Parabéns, o senhor é o novo ministro!” Ele mesmo não sabia de nada. Mas seu nome fora anunciado em edição extraordinária do Jornal Nacional.Marinho o aprovara e passou a notícia em primeira mão para sua emissora.

Assim é o Brasil. Um candidato a ministro de Estado é sabatinado pelo dono da Globo antes de assumir o cargo. Em plena democracia. Se é que democracia é o nome correto para isso.