Bastide brasileiro
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Bastide brasileiro

Luiz Zanin Oricchio

26 Abril 2011 | 00h13

Roger Bastide (1898-1974) veio ao Brasil em 1938 para lecionar sociologia na então recém-criada Universidade de São Paulo. Aqui chegou para substituir ninguém menos que Claude Lévi-Strauss, o nome mais forte do estruturalismo. Como seu antecessor, Bastide também mergulhou de cabeça na cultura do país de adoção. Trazia na bagagem a formação humanística europeia, sedimentada na velha França e, em boa parte, usou-a para interpretar a cultura nova com a qual se deparava.

Visitou o País de alto a baixo, tentou entendê-lo e, sobretudo, escreveu muito sobre ele. Deixou livros fundamentais como Psicologia do Cafuné e Estudos Afro-Brasileiros. Mas também imprimiu sua marca em artigos para jornais, catálogos de exposição e revistas. Impressões do Brasil (Imprensa Oficial), com organização e prefácio de Fraya Frehse e Samuel Titan Jr. resgata esses textos há muito fora de circulação sob a forma de um livro luxuoso, com edição caprichada, papel de alta qualidade e muito bem ilustrado. É um prazer para o leitor voltar-se para o texto tão iluminador de Bastide, e sob condições tão atraentes.

Impressões do Brasil se compõe de onze artigos, de tamanhos variados. Há desde o artigo de jornal, breve (brevidade dos jornais de então, que podiam abrigar textos de até uma página, sem qualquer sentimento de culpa) até ensaios de maior fôlego, que eram publicados em capítulos, como as novelas de folhetim, com periodicidade semanal. Da coletânea constam quatro artigos originalmente publicados neste jornal: Igrejas Barrocas e Cavalinhos de Pau (1944), O Oval e a Linha Reta (1944), Ensaios de uma Estética Afro-Brasileira (1948-1949) e Estética de São Paulo (1951).

É curioso ver como os artigos, dispostos em ordem cronológica, testemunham o processo de ambientação do intelectual francês no Brasil. O primeiro, Pintura e Mística (1938) trata de uma questão mais geral, expressa pelo título, ou seja, de como a arte, em especial a pintura, aproxima-se da mística pela busca de restauração de uma unicidade perdida (uma representação da Queda, claro). Da mesma forma, no segundo, Presença da África (1940), é sobre um tema da pintura francesa – a presença de personagens oriundos das colônias na representação pictórica de grandes artistas – que ele se debruça.

Mas logo começam a surgir textos que mostram a profunda imersão de Bastide na cultura brasileira. E, no primeiro exemplar dessa espécie, Machado de Assis, Paisagista (1940), Bastide dá prova de leitura absolutamente original do nosso maior escritor. A singularidade de abordagem já vem explícita no título. Foi preciso uma sensibilidade outra, um olhar estrangeiro, para detectar um erro recorrente na análise de Machado, que o classificava como um mau paisagista, um escrito avesso à descrição de ambientes e do entorno físico das suas histórias. O engano tomou forma de anedota na frase famosa “As casas de Machado de Assis não têm jardim”. Pelo contrário, como mostra Bastide, a natureza está bem presente à narrativa machadiana, apenas que profundamente integrada à estrutura da trama. Basta pensar em um dos seus romances maiores, Dom Casmurro, necessariamente ambientado na cidade litorânea, que dá outro sentido aos “olhos de ressaca” de Capitu e inclui a possibilidade do mar revolto, que carrega Escobar e sela para sempre a dúvida em Bentinho. Hoje essa presença implícita da natureza na obra de Machado é quase um lugar-comum. Mas foi preciso um leitor francês para percebê-la e apontá-la a todos.

Essas sacadas se sucedem, de ensaio em ensaio. Em O Oval e a Linha Reta, Bastide discute a predileção de Lasar Segall pela linha curva. Como não era um formalista, não se contenta em detectar a persistência de uma escolha formal, mas mostra como era lhe era necessária para um determinado tipo de expressão. Havia ideias em jogo e estas pediam determinada forma e não o contrário. Luminosos também são os ensaios consagrados ao barroco (Igrejas Barrocas e Cavalinhos de Pau, A Volta do Barroco e Variações sobre a Porta Barroca) e também aquele em que Bastide evoca a sua cidade de adoção (Estética de São Paulo). Por fim, é no caudaloso Ensaio de uma Estética Afro-Brasileira que reencontramos Bastide em seu universo preferencial, uma mística que se aproxima da arte, sem que uma se reduza a outra.

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