Bastardos Inglórios
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Bastardos Inglórios

Luiz Zanin Oricchio

09 de outubro de 2009 | 09h14

bast

É engraçada a trajetória de Quentin Tarantino. De obscuro diretor de Cães de Aluguel (praticamente lançado na Mostra de São Paulo), virou o badalado cineasta de Pulp Fiction, Palma de Ouro em Cannes. Virou “autor”. Queridinho de uma parte da crítica, reconhecido na Europa. E o que acontece com um “autor”? Se você faz parte do seu fã clube, já nem precisa mais ver um filme novo para saber se gosta ou não. Ele fez, você gostou. E ponto. É um dos problemas da noção de autoria, pelo menos quando entendida dessa maneira clubística e infantil. Melhor analisar filme a filme.

E, dessa maneira, se pode até mesmo constatar a evolução de um cineasta, como é o caso de Tarantino. Filmar bem, ele sempre soube. Da cultura cinematográfica de locadora, onívora, ele tirou um estilo próprio, que se alimenta de reciclagem e de citações. Mas, dessa vocação gulosa em relação à obra alheia, Tarantino apurou um gosto de gourmet. E aí está o resultado, por exemplo, na primeira sequência do filme, aquela em que uma paradisíaca cena de campo francesa se vê perturbada pela chegada de um destacamento nazista, chefiado por Hans Landa (Christoph Waltz, em grande atuação). Tudo, nessa sequência, desde as expectativas que cria no espectador e são frustradas em seguida, até a mudança de idioma dos intérpretes, aponta para uma tensão que só se resolve no final. Para conduzir uma sucessão de imagens assim, o diretor tem de ser um senhor do tempo, da dinâmica da cena, da presença e dos volumes no quadro. É, sim, obra de mestre.

Esse mesmo virtuosismo se repete em outras partes do filme e, em seu conjunto, em seu todo. Por exemplo, na sequência dentro do cinema em que se vai dar o atentado à alta cúpula nazista. Poderíamos ir enumerando as partes em que Tarantino proporciona um real sentimento de prazer cinematográfico. Seria quase redundante. É mesmo um filmaço.

Mas o que fica, além de tudo isso, é a maneira como Tarantino pensa suas questões. A maneira como coloca em xeque, sem qualquer prurido, a pulsão de vingança, na figura hilária do tenente Aldo Reine (Brad Pitt) e a corrida de ratos do fim da guerra, com a debandada desse tipo tão melífluo como caricatural que é Landa. De qualquer forma, Inglórios Bastardos, com sua extensão, capítulos e personagens diversificados e ricos, é aquele tipo de filme no qual você se instala como para uma temporada de férias. Acostuma-se a ele e fica difícil deixá-lo no final. A vontade é de revisitá-lo o mais cedo possível. E isso, claro, tem a ver com o “desejo” de cinema que emana da obra de Tarantino. É uma pulsão que se transmite ao espectador.

(Caderno 2, 9/10/09)

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.