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Banquete do Amor

Luiz Zanin Oricchio

10 de maio de 2008 | 11h09

Em Banquete do Amor, Robert Benton (de Kramer vs. Kramer) quer fazer algo como uma comédia romântica de gênero dramático.

O centro da narrativa fica com o sempre competente Morgan Freeman. Ele é Harry Stevenson, professor universitário que se afastou do cargo (ficamos sabendo depois) quando um drama pessoal atinge sua família. Nas horas vagas, que são muitas, exerce a função de alcoviteiro entre jovens. Intervém quando necessário. Aconselha, acolhe, lamenta quando as coisas não dão certo.

É por sua boca que ouvimos a fábula grega que daria sentido às várias histórias amorosas, quase sempre frustradas, a que assiste. Dizem que os deuses, entediados, resolveram inventar a humanidade para se divertir. Mas, mesmo assim, continuavam aborrecidos; então, inventaram o amor e o tédio acabou. Resolveram experimentar eles mesmos o amor, então viram como ele poderia ferir. E então inventaram o riso para suportar a dor. É boa a fábula, não é?

E um dos personagens, Bradley (Greg Kinnear), parece ilustrá-la à perfeição. A mulher o abandona, e por outra mulher, ainda por cima. Incansável, Bradley resolve cantar uma corretora de imóveis (Radha Mitchell), que é amante de um homem casado. E vai assim, desastre em tropeço amoroso, até se encontrar com uma médica em circunstâncias especiais. O filme acompanha também a história de um casalzinho que se forma e tem um final trágico previsto pela cartomante.

Nem sempre dá para levar muito a sério as histórias que Banquete do Amor nos apresentam. Seria muito dizer que parecem inverossímeis, porque a ficção, deve criar a sua própria verossimilhança. Mas parecem inconsistentes. Não nos tocam. Nem estão lá apenas para divertir, porque o filme quer, ao mesmo tempo, ser engraçado e mostrar o mal-estar do amor, de que estavam cientes os deuses gregos quando o criaram. No amor, o ser humano freqüenta o paraíso. Mas em poucas outras circunstância é mais frágil do que quando ama. Essa contradição causa muito sofrimento porque se pode mandar em muita coisa nesta vida, menos no desejo dos outros. Benton escolhe esse alvo certo para seu filme. Faltaram, por um motivo ou por outro, ferramentas adequadas para atingi-lo. O filme não fica nem cá nem lá. Nem é engraçado nem convincente ao falar dessa complexa e divertida atividade que a espécie inventou para se perpetuar.

(Caderno 2, 9/5/08)

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