As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Bananas ao vento dos anos 1960

Luiz Zanin Oricchio

05 Janeiro 2007 | 14h09

Pelas páginas de Jefferson Del Rios passam personagens da cena cultural paulistana em sua década mais intensa

Luiz Zanin Oricchio

O jornalista Jefferson Del Rios escolheu o título de Bananas ao Vento (editora Senac, 152 págs., R$ 37) para o seu livro. Estranhou o título? Se você viveu no tempo da Tropicália não deveria. Trata-se de um verso de Geléia Geral, de Torquato Neto, música de Gilberto Gil, um dos momentos-chave daqueles anos descritos na obra: ‘Um poeta desfolha a bandeira/E eu me sinto melhor colorido/Pego um jato, viajo, arrebento/com o roteiro do sexto sentido/Voz do morro, pilão de concreto/Tropicália, bananas ao vento.’ Eis aí.

O livro de Del Rios tem como subtítulo Meia Década de Cultura e Política em São Paulo. Quer dizer, vai de 1964 – ano do golpe militar e também do primeiro O Fino da Bossa – terminando em 4 de novembro de 1969, quando o guerrilheiro Marighella foi morto na Alameda Casa Branca, nos Jardins, enquanto o Santos de Pelé enfrentava o Corinthians no Pacaembu.

Pelas páginas do livro passam os personagens da cena cultural paulistana em seus anos talvez mais intensos: Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Zé Celso, Plínio Marcos, Augusto Boal, mas também os estudantes da Maria Antonia, os vestibulandos do Cursinho Equipe, o Tuca, a USP, a PUC. Bares como o Redondo, onde se reunia a classe teatral, e o Sem Nome, onde Chico Buarque tocava violão e bebia cachaça, eram pontos de encontro, namoro e conspiração. Tempos.

Jefferson pede que quem for descrever o período evite o clichê ‘anos de chumbo’, tirado, provavelmente, do filme da alemã Margareth von Trotta que tem esse nome. Margareth falava da guerrilha alemã, do grupo Baader-Meinhoff, e talvez nesse caso pudesse mesmo aplicar essa expressão cinzenta àquela época do seu país.

Abaixo do Equador a realidade era outra. Não que a política brasileira fosse mais amena. Pelo contrário. Vivia-se, no período considerado, uma ditadura feroz. Mas, convivendo com ela, ou ainda, opondo-se a ela, havia uma juventude febril, alegre, desafiadora, criativa. Então, ao máximo de repressão contrapunha-se o máximo de vitalidade. Eros contra Tânatos, numa fricção e intensidade tais que fizeram daquela época um tempo memorável para quem o viveu.

Memorável, no sentido de algo que não pode nem deve ser esquecido. E como seria, se muitos dos seus protagonistas andam por aí, produzindo e interferindo na vida cultural? Mas também, e esse é o outro extremo, um tempo que não deve ser idealizado. Como lembra o autor, é notável que naqueles poucos anos tenha surgido um número tão grande e poderoso de obras e criadores, que exercem sua influência até hoje. Mas é lamentável que esses criadores tenham vivido e suas obras tenham sido feitas num ambiente de perseguição, privação de liberdades, ameaças, tortura, exílio e morte.

De qualquer forma, a luz daquele passado ainda se estende sobre o presente de maneira significativa. Foi em São Paulo, naquele curto período lembrado por Jefferson, que surgiram ou se destacaram Chico Buarque, Caetano Veloso e Gil, Torquato Neto, os teatros universitários da USP e da PUC, as noites do Fino da Bossa no Teatro Paramount, o cinema marginal de Rogério Sganzerla e Andrea Tonacci, a literatura de José Agrippino de Paula, as barricadas da Rua Maria Antônia, o teatro de Plínio Marcos, o Arena de Augusto Boal, o Oficina de José Celso… A relação iria longe. E deveríamos lembrar que um tempo não se faz só com os famosos. Havia toda uma coletividade anônima que circulava por aquelas escolas, teatros e botecos, agitava, bebia, contribuía para o clima geral. E discutia, discutia. Como se discutiu naqueles anos em que o filtro de análise, estética, social ou mesmo amorosa, era sempre, necessariamente, política.

O livro contribui para a reconstrução da memória paulistana durante a fase mais frenética de oposição ao governo militar, que se estendeu do golpe até pouco depois do AI-5 (em 13 de dezembro de 1968). Junta-se a outros, como Maria Antônia: Uma Rua na Contramão, de Maria Cecília Loschiavo dos Santos, e Iara: Reportagem Biográfica, de Judith Patarra, sobre a guerrilheira Iara Iavelberg, que foi namorada de José Dirceu e companheira de Lamarca.

Jefferson Del Rios é jornalista e escreve muito bem. Sua descrição do tempo é vívida, sem frescuras, com a emoção na dose boa. Bananas ao Vento funciona como aide-mémoire para quem viveu aqueles tempos. Serve como apresentação de um outro tipo de mentalidade para os mais jovens.