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Balanço geral do Cine PE 2012

Luiz Zanin Oricchio

04 de maio de 2012 | 18h05

Muito interessante esta 16ª edição do Cine PE. A mais interessante, talvez, desde antigamente, quando comecei a ir (vou desde o primeiro, chamava-se Festival do Recife, fui júri, junto com Janaina Diniz Guerra, e conheci o pessoal do Árido Movie). Isso para dizer que, sem forçar muito a memória, foi provavelmente a melhor edição, em termos de filmes concorrentes.

Edição equilibrada, dentro da proposta do festival, de mesclar filmes mais populares (porém de qualidade) a outros mais “fechados” e autorais.

Neste ano conviveram filmes românticos como À Beira do Caminho, de Breno Silveira (venceu o festival) e o experimental Estradeiros, de Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro (levou o prêmio da crítica).

É possível ver qualidades em ambos, embora, do meu ponto de vista, o primeiro se perca um pouco por excesso de sentimentalismo e Estradeiros invista mais no trabalho formal. Na entrevista, respondendo a uma pergunta minha, Renata Pinheiro disse estar farta de filmes que trabalham com determinado tipo de personagem, mas não o incorporam à sua linguagem, o que seria um equívoco ético, mais que estético. Tendo a concordar, embora tenha de pensar melhor na questão. Em Estradeiros, os personagens são seres à deriva (o sentido não é pejorativo, ao contrário) e de vida fragmentária. O linguagem do filme adere a essas característivas.

Ao lado desses dois extremos, muitas etapas intermediárias, como o etnográfico Na Quadrada das Águas Perdidas, de Wagner Miranda e Marcos Carvalho, tendo como único ator Matheus Nachtergaele. Vive o sertanejo que sai de sua casinha para vender um animal e, com o dinheiro, comprar o que precisa. Rapadura, fumo de corda, feijão, pregos, essas coisas. A viagem é uma verdadeira iniciação na natureza da caatiga, da qual o sertanejo tira o essencial para sobreviver, nas mais áridas condições. Já o tinha visto no Cine Ceará do ano passado; revi com gosto. Acho algumas críticas de colegas injustas para com o filme. É um documentário sobre a caatinga, que veste a roupa da ficção e conta com um ator que tudo diz sem pronunciar uma única palavra. Não me parece pouca coisa.

Houve também o documentário de Jorge Mautner, dirigido por Pedro Bial. Um belo trabalho, com pesquisa de imagens de arquivo, resgate de um antigo filme dirigido por Mautner nos anos loucos em Londres e uma exposição do personagem sob a forma de um espetáculo, como se estivéssemos num palco. Enriquece a figura de Mautner, com seqüências muito legais. Por exemplo, o diálogo entre ele e a filha Amora, com a moça cobrando do pai coisas passadas em sua infância. A começar pelo nome, que os pais achavam muito lindo e original, mas que valeram à garota as previsíveis gozações na escola. Ela também não gostava que o pai andasse nu pela casa. É, ser filha de maluco beleza não deve ser mole mesmo.

Tudo somado, o documentário é revelador e comovente. Tem coisas a dizer mesmo para quem pensa que conhece tudo de Mautner. E é uma boa apresentação a quem não o conhece. Na entrevista, falei com Bial, que não conhecia pessoalmente. Me pareceu alguém simpático e inteligente. Não se furtou a responder perguntas mais complicadas sobre a sua persona pública de Mr. Big Brother e mostrou familiaridade ao falar sobre cinema. Foi legal.

Paraísos Artificiais, de Marcos Prado, me pareceu o mais…artificial deles todos. Penso nele e sua ousadia (com drogas,  sexo e música techno) e me parece um pouco radicalismo de boutique, estetizada. E devidamente apaziguada no fim. No entanto, não é indigno de maneira nenhuma. E há quem goste dele, tanto assim que foi muito bem premiado pelo júri oficial. Não me convenceu. A foto (de Lula Carvalho, premiado) me parece melhor do que o projeto em seu todo.

Melhor, a meu ver, e completamente ignorado pelo júri foi o infanto-juvenil Corda Bamba, de Eduardo Goldenstein. Onírico, circense, felliniano, trata de forma poética as fantasias do luto de uma garota. Muito bonito visualmente, lembra demais o mundo de imagens de Fellini, embora as referências também sejam variadas. Mas, quer saber?, referências são importantes para nós, muito menos para o público. Interessa mais a maneira inspirada como o filme é construído.

Por fim, Boca, de Flávio Frederico, uma bela imersão na São Paulo noturna dos anos 50 e 60 através da biografia do criminoso Hiroito de Moraes Joanides, o chamado “rei da Boca do Lixo”. Pois foi com esse título – Boca do Lixo – escrito na cadeia, que Hiroito se tornou conhecido de muitos paulistanos, de mim, inclusive.

Lembro-me de haver lido o livro na adolescência e algumas passagens ficaram na memória. Uma delas, a fuga de Hiroito, frenética, pois ele não podia parar para dormir e descansar, pois seria preso. À base de Pervetin na veia, passou semanas sem praticamente parar o carro, vagando de um lado a outro, dentro de São Paulo, como um tubarão sem repouso.

Frederico usa um pouco essa sequência no filme. Abre e fecha com ela. Talvez pudesse ter absorvido esse tom lisérgico na narrativa, mas ela já é, de fato, muito frenética, em boa parte devido a interpretação de Daniel de Oliveira, muito boa, um camaleão, que se altera de personagem a personagem. Sua parceira também parece saída de um autêntico noir – Hermila Guedes, como a prostituta que se converte em companheira do bandido.

Gosto muita da fotografia (Adrian Teijido) e do clima geral do filme, um baixo orçamento que disfarça muito bem suas dificuldades de produção.

Entre os curtas, alguns destaques:

Até a Vista, trabalho inteligente e bem humorado de Jorge Furtado. Graça, informação literária, boa construção de personagens, na história do rapaz que procura o autor argentino para lhe adaptar um romance. O cachê é ser ciceroneado numa viagem ao Brasil para se reencontrar com um antigo amor. Uma delícia.

Isso não É o Fim, de João Gabriel, ambientado no Baixo Augusta, sobre o homem que aluga seu banheiro por um real. Basfond paulistano, filmado por um baiano, capta bem o espírito (se o termo cabe) da nossa querida Augusta, para os lados do Centro, não dos Jardins. Foi o escolhido pela crítica.

Na Sua Companhia, de Marcelo Caetano (o mesmo de Bailão), uma imersão na cena gay que produziu incômodos no cinema. Enfim, preconceitos estão aí e o cinema apenas os põe a nu. Não há nenhuma grosseria, mas o tema ainda parece tabu.

Di Melo – o Imorrível, de Alan Oliveira e Rubens Pássaro, sobre a trajetória de Di Melo, o cantor que tendo gravado apenas um disco nos anos 70, tornou-se uma lenda. Submersa, mas lenda. Di Melo é uma figuraça, irreverente como Tim Maia, mas o filme não se apoia apenas nele. Muito bem construído, filmado e montado levou a galera ao delírio.

Deixo de comentar alguns curtas, pois já passaram por vários outros festivais, como são os casos de Qual Queijo você Quer?. A Fábrica e L. Têm qualidades, mas já estão muito repetitivos.

Por fim, gostaria de ressaltar o destaque dado pelo festival ao nosso júri da crítica. Ao longo do evento o prêmio foi anunciado pela apresentadora, junto com os outros. No dia da premiação, a crítica teve lugar de destaque, os nomes dos vencedores sendo lidos no mesmo segmento dos ganhadores do júri oficial e do público da respectiva categoria. Isso valoriza demais tanto a premiação da crítica quanto a do público. Quanto a esta, o Cine PE também inovou: foram escolhidas 42 pessoas, que votaram nos filmes de sua preferência. Isso evita o problema de outros anos, quando se votava indiscriminadamente nos totens dispostos para esse fim no saguão. O critério valoriza o prêmio.

Todos eles, aliás.

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