As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Balada do Amor e do Ódio

Luiz Zanin Oricchio

16 de agosto de 2011 | 18h03

Quem vai ver um filme de Alex de la Iglesia já sabe o que encontrar – humor negro, irreverência, falta total de pudor em relação a qualquer exagero. Foi assim em O Dia da Besta, A Comunidade, e é assim neste Balada do Amor e do Ódio, paroxística história de paixão ambientada no longo período franquista.

Tudo começa durante a Guerra Civil, quando um palhaço de circo é requisitado pelas tropas republicanas. Mas se trata de um prólogo, pois o protagonista será o filho desse primeiro personagem, Javier (Carlos Aceres), ele também palhaço, e já vivendo nos anos 70. Javier se emprega num circo e terá de contracenar com o psicótico Sergio (Antonio de la Torre), palhaço de grande talento, amado pelas crianças e violento até a medula. Pois não é que Javier resolve cair de amores pela mulher de Sergio, a equilibrista Natalia (a explosiva Carolina Bang)?

Desse modo, a história será a desse insólito triângulo amoroso, tendo como pano de fundo os estertores do fascismo espanhol. A trama rocambolesca será entremeada por fatos reais, inclusive a encenação do atentado que matou o almirante Carrero Blanco no centro de Madri em 1973 – e reivindicado pelo ETA. De la Iglesia é basco ele próprio, e disse que cresceu cercado pela contestação política, pelo medo e pela agitação. Tudo isso está no filme, que pode ser visto como metáfora da era franquista. Ou, talvez melhor, como o exorcismo de um tempo marcado para sempre no imaginário dos espanhóis que o viveram. Tanto assim que as cenas finais se desenrolam no Vale dos Caídos, o monumento erguido por Franco para as vítimas da Guerra Civil.

Pode-se descontar um pouco do exagero do realizador em nome das magníficas interpretações do duo de antagonistas, Carlos Aceres e Antonio de la Torre, estimulados pela não menos marcante Carolina Bang. De la Iglesia manipula, com tintas fortes, uma estética que vai do diálogo com Tarantino a um expressionismo sanguinolento e inverossímil. Aliás, se há mérito no filme, é que ele nos conquista pela força poética e nos faz passar por cima da inverossimilhança.

Num quadro em que as pulsões amorosas e políticas se mesclam, alguns diálogos brilhantes nos levam para o sentido profundo do filme. Quando Sergio entrevista Javier para ver se o contrata, pergunta por que ele deseja ser palhaço. Javier devolve a pergunta e Sergio responde: “Porque se não fosse palhaço, seria um assassino”. E Javier: “Pois eu também”. Diálogo profético. Quando o dono do circo quer saber de Natalia por que motivo ela se submete à violência de Sergio, a moça responde com outra pergunta: “Você nunca se apaixonou por alguém sabendo que ele vai te matar?”

Esse é o clima de Balada do Amor e do Ódio, no qual a ambivalência dos espanhóis em relação ao fascismo é poeticamente transposta para este não menos ambíguo triângulo amoroso. O irracional, nas figuras do amor e da morte, predomina sobre o bom senso nas paixões políticas como nas sexuais.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: