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Balada de um homem só

Luiz Zanin Oricchio

28 de janeiro de 2011 | 21h05

Sofia Coppola chegou de mansinho a Veneza para apresentar seu Um Lugar Qualquer (Somewhere). Sem estrelismos, ar de boa moça, low profile total, bem condizente com o tom do próprio filme. Acabou vencendo o festival, o que desencadeou uma tempestade pois o júri era presidido por seu ex-namorado, Quentin Tarantino, logo acusado de protegê-la em nome dos velhos e talvez bons tempos. Nem por isso Sofia se abalou. Ignorou as críticas, colocou seu Leão de Ouro na bagagem e ponto final. ]Em Algum Lugar estreia agora no Brasil e você poderá julgar se houve mesmo protecionismo ou se Sofia mereceu o prêmio máximo do mais antigo festival de cinema do mundo.

Talvez haja alguma discussão a respeito, mas, no fundo, é muito fácil gostar de Um Lugar Qualquer. É o chamado “filme simpático”, simples em sua superfície, complexo o suficiente para permitir interpretações mais profundas. Fala do cotidiano de um ator, Johnny Marco (Stephen Dorff), em campanha de promoção do seu novo filme. Marco mora num hotel famoso de Los Angeles, o Chateau Marmont, onde tudo parece possível. Há mulheres lindas à disposição 24 horas por dia, festas, bebida a rodo, fora outros aditivos. Quando sai à rua, Marco roda em sua Ferrari negra e é reconhecido em cada cruzamento da cidade.

Em aparência, uma vida invejável. Mas também, sem jogo de palavras, uma vida na qual tudo é aparência. Nesse ponto se revela o olhar de Sofia, bem aguçado em focar um cotidiano que ela conhece bem. “Acompanhei muito o meu pai no lançamento de alguns dos seus filmes e sei como é essa vida”, disse. De fato, Sofia chegou também a morar no Chateau Marmont e viajou com o grande Francis Coppola pelo mundo quando este devia cumprir os rituais de mídia reproduzidos no filme. Entrevistas coletivas nas quais a banalidade das perguntas e das respostas rima com perfeição, a vida em hotéis e aeroportos, a badalação em programas de TV, etc. O cúmulo acontece quando Johnny deve ir a Milão para o lançamento e se vê enredado pela exuberância italiana em geral dedicada aos astros de Hollywood.

Enfim, Johnny Marco é um homem da superfície e vive cercado de gente epidérmica. Há, então, algo que acontece e lhe serve como passaporte para o mundo real. Deve ficar alguns dias com sua filha Cleo (Elle Fanning), fruto de um casamento que não deu certo. Há aí uma ruptura. Como diz Sofia, “O personagem Johnny representa alguém comum nesse meio. Ele é superficial, autodestrutivo, e, quando aparece a filha, ele muda; e consegue evoluir.” É um ponto perigoso do filme. Ou poderia ser. Cleo, ao se imiscuir na vida promíscua e sem sentido do pai, poderia ser mostrada de maneira simplista.  Num trabalho de índole edificante, tudo seria mecânico demais, didático em excesso, e se perderia.

Sofia contorna esse abismo do óbvio com seu estilo. Segura-se nele, na verdade. É o que já conhecíamos do seu melhor trabalho (Encontros e Desencontros, Lost in Translation, no original). Um estilo feito de reticências, de silêncios, de música parcimoniosa, de algumas tomadas em tempo real, como quando Marco fuma um cigarro e a duração desse ato é o mesmo da vida real.

Esse ritmo pode exasperar quem espera um cinema sempre trepidante, mas é essencial para construir a subjetividade do personagem. E do nascimento da relação entre pai e filha, mesmo num impessoal hotel de luxo. Quando se pede que escolha uma cena de sua preferência, Sofia não hesita: “Uma das minhas prediletas é aquela com os dois brincando na piscina do hotel. Acho que ela tem essa domesticidade, essa familiaridade que eu pretendia captar, no fundo.” A cena tem o tempo necessário para transmitir ao espectador o nascimento da ternura entre um pai até então distante e uma garotinha de 11 anos, obviamente deslumbrada com tudo o que a cerca naquele momento.

Para Coppola pai, a família é tudo: basta rever seus Chefões e mesmo seu trabalho mais recente, Tetro. Para Coppola filha, não é diferente. Ela, que viveu como atriz a filha do capo Michael Corleone (Al Pacino), no terceiro Chefão, tornou-se também cineasta e segue as pegadas do pai. Em Um Lugar Qualquer, a família é aquele horizonte de normalidade, um eixo, o porto seguro que Johnny Marco, vivendo à deriva, vislumbra. Sua existência, que, num momento, ele pode sentir como prazerosa e invejável, de repente se revela de um vazio assustador. É a balada de um homem só o que se descreve em Um Lugar Qualquer.

Desde Encontros e Desencontros, Sofia desenvolveu um jeito próprio para contar esse tipo de história e desenhar esse gênero de personagem. Quando Sofia mostrou o filme ao pai, este lhe disse que só ela poderia tê-lo feito desse jeito. “Foi o maior elogio que recebi”, disse. Foi mesmo. É a afirmação de um estilo reconhecível. Uma denominação de origem controlada, como a dos vinhos que o velho Coppola produz em Napa Valley, na Califórnia.

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