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Baixio das Bestas: radiografia da violência endêmica do País

Luiz Zanin Oricchio

12 Maio 2007 | 14h06

As imagens iniciais são de um engenho de cana decadente. As palavras que se ouvem, as mesmas que constam do romance de José Lins do Rego e do filme de Walter Lima Jr., Menino de Engenho: o tempo vai consumir os engenhos, a usina, a mim, a você. Fala-se do tempo, quer dizer, dos ciclos, da ascensão, da queda, da juventude e da morte. Mas não há, em Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, o lirismo que em Menino de Engenho temperava (e de certa forma atenuava) essa curva da decadência. Compreende-se: Menino de Engenho falava de um processo. Baixio das Bestas está preso ao presente. No filme de Cláudio Assis não há um devir; há o instante, petrificado em uma contemporaneidade intolerável.

Por isso, qualquer insinuação de nostalgia desse pequeno prólogo é dissipada pelas imagens seguintes. O que se vê nelas? Um homem, bastante velho, desnudando uma garotinha para que ela seja vista e apalpada por um grupo de voyeurs. Pela distância, pela luz difusa, não se distingue direito o local. A câmera sobe e pára por um instante na cruz iluminada. Estamos ao lado da igreja.

Essas primeiras seqüências definem o tom de Baixio das Bestas. Estamos na Zona da Mata de Pernambuco. Uma região dominada pelo plantio da cana. Região de passagem, de caminhoneiros que vão e vêm, uma sociedade rural rarefeita. O que existe lá para fazer? Estamos num lugar de trabalho temporário, de rara ou nenhuma esperança econômica, com uma também rala elite rural. Há a cana, o bagaço da cana, e os homens também transformados em bagaço. E principalmente as mulheres, porque, entre outras coisas, Baixio das Bestas é um filme-crítica da violência sobre a mulher.

Na decadência, a sexualidade é mais atroz. Flerta com a violência e com a morte. Por isso as prostitutas locais (interpretadas por Marcélia Cartaxo, Dira Paes e Hermila Guedes) são brutalizadas por esses agroboys de índole canalha (Caio Blat e Matheus Nachtergaele). Esse mundo torpe, amoral, convive com o moralismo mais tacanho. O avô que explora a neta ao lado da igreja, por exemplo, se queixa de que hoje ninguém mais tem vergonha na cara, não existem mais homens ou mulheres como antigamente.

A violência da Zona da Mata explode na tela; é um microcosmo da imensa violência brasileira, essa que desejamos ver como expressão de uns poucos grupos de pessoas, mas que às vezes desconfiamos estar inscrita no próprio DNA social do País. Baixio das Bestas nos joga isso na cara, com toda a desfaçatez, como se dissesse: ‘Olhem isso aí, mexam-se na cadeira, isso é com vocês, vocês fazem parte disso.’ Esse filme, que nos questiona, jamais poderia cair na armadilha da espetacularização. O desenho fotográfico, assinado por Walter Carvalho, nos aproxima e nos distancia desses personagens. Estamos bastante próximos para nos emocionarmos e distantes o suficiente para refletir sobre eles. Esse grande filme exige um espectador à sua altura, comovido e lúcido.