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Azul Profundo

Luiz Zanin Oricchio

16 de dezembro de 2012 | 23h35

A primeira coisa a se saber deste Azul Profundo é que seu diretor, o grego Aris Bafaloukas, sabe do que fala. O protagonista é um nadador, Dimitri. O próprio Bafaloukas foi campeão grego de natação por oito anos seguidos. Então, esse é um ambiente familiar. Dimitri, o personagem, é nadador de talento, cheio de fôlego (consegue ficar embaixo d’água, sem respirar, por mais de cinco minutos).  Na vida social, a performance não é tão boa. É travado. Pelo menos até que, na piscina onde treina, conhece Elza, uma atrevida ativista ecológica.

Azul Profundo (que se fosse traduzido literalmente se chamaria Apneia) se desenvolve em dois planos de tempo. Num deles, temos o início do caso entre os dois jovens. Dimitri só quer saber de suas piscinas e recordes. Além disso, seu pai está encalacrado com uma dívida misteriosa, que parece ter algo a ver com a carreira do rapaz. Elza, por sua vez, quer salvar os golfinhos e aspira fazer do namorado um cúmplice de seu ativismo de risco. No segundo plano da narrativa, estamos às voltas com um desaparecimento misterioso. Elza foi participar de uma manifestação no mar e sumiu do mapa. Todos a procuram.

A articulação entre um plano e outro é meio dura. As narrativas não se casam; e nem produzem grande sensação como thriller psicológico, como seria o desejo do diretor. Neste ponto, convém reconhecer: se Bafaloukas conhece bem as piscinas, maiôs de competição e os macetes do ofício, não parece tão íntimo assim das armadilhas da narrativa cinematográfica.

Não que o filme não tenha qualidades. Tem. Apenas é um tanto duro de cintura – como seu protagonista, Dimitri. Por falta maior de fluidez, Azul Profundo se vale de uma série de recursos comumente associados ao “cinema de arte”, no que o termo tem de pior. Ou seja, o de querer ostentar um status de alta cultura. Tomadas em slow motion, uma fotografia dessaturada, que às vezes tende ao preto e branco e descolore o magnífico mar da Grécia. Planos que se pretendem originais. Por certo, o diretor acha que retratar o mar grego com aquele azul de caneta tinteiro (como, aliás, fez Godard em seu magnífico O Desprezo) seria um lugar-comum. De qualquer forma, a atmosfera opressiva buscada pelo suspense não ocorre. E a impressão que fica é de frieza.

Claro que essa tonalidade low profile refere-se ao próprio protagonista e sua incapacidade de envolver-se emocionalmente. Numa sequência recorrente, a namorada dá um longo grito (uma espécie de grito primal), no meio da noite, e o convida a fazer o mesmo. Ele não consegue. Não conseguirá jamais. O problema é que o ambiente geral da história, que deveria expressar a frigidez emocional do personagem, contamina a própria relação do espectador com o filme.

 

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