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‘Ausência’ é o vencedor. Balanço do Festival de Gramado 2015

Em festival de bom nível, vence o longa de Chico Teixeira. No entanto, outras opções do júri são discutíveis

Luiz Zanin Oricchio

16 Agosto 2015 | 19h28

 

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GRAMADO – Ausência, de Chico Teixeira, foi o grande vencedor do 43º Festival de Gramado. Além do prêmio de melhor filme, levou os kikitos de trilha musical, roteiro e diretor. Ficou bem.

Já o outro filme que, na minha opinião, poderia ter vencido o festival, o gaúcho Ponto Zero, de José Pedro Goulart, foi subavaliado, ficando apenas com som e montagem. Ora, o recado do júri parece ser este: o filme é apenas bom tecnicamente. É muito mais que isso, uma belíssima estreia tardia de Goulart na direção de longas, investigando a jornada noite adentro de um adolescente com falta de referências.

Se Ponto Zero foi subavaliado, O Homem Só foi superavaliado. Ficou com os prêmios de coadjuvante (Otávio Müller), fotografia e atriz (Mariana Ximenes). Mariana é uma graça de moça mas seu trabalho, francamente, não pode ser comparado ao de Gilda Nomacce em Ausência. Só não vê quem não quer. O júri não quis.

Também exagerada, a meu ver, a premiação do apenas simpático O Último Cine Drive-in, com coadjuvante (Fernanda Rocha), direção de arte e ator (Breno Nina). O Outro Lado do Paraíso, com sua narrativa careta, foi devidamente agraciado com o Prêmio do Público.

Acho um tanto escandaloso que O Fim e os Meios, de Murilo Salles, o único filme ostensivamente político presente em Gramado, não tenha sido lembrado. Verdade que é irregular, mas é uma obra de ideias, estimulante, e que talvez por isso mesmo tenha sido ignorada.

Já o júri da competição latina fez lambança ao dar o prêmio principal ao apenas simpático La Salada. Tinha opções melhores. Acertou ao dividir o prêmio de atriz entre as três intérpretes do cubano Venecia. O mexicano En la Estancia ficou com roteiro e ator (Gilberto Barraza). Era o título mais original desse segmento do festival gaúcho. Ganhou o prêmio paralelo Dom Quixote, dos cineclubistas.

O colombiano Ella, que tem qualidades, impacto, mas também problemas, tocou as pessoas com sua história do idoso que procura dar um enterro digno à sua mulher. Levou o Prêmio do Público.

Para mim, o mais surpreendente, do ponto de vista negativo, foi o prêmio da crítica, que, em tese, deveria privilegiar linguagens mais inovadoras. Premiou La Salada, entre os latinos, e o Último Cine Drive-in, dentre os longas brasileiros. Acho incompreensível.

Entre os curtas, venceu o gaúcho O Corpo, de fato um bonito e intrigante trabalho. Dividiu atenções com o também gaúcho Teto sobre Nós, inovadora visão sobre ocupações urbanas. E o divertido e crítico Quando Parei de me Preocupar com Canalhas.

No todo, o festival foi bom. Entre os longas, a mostra latina foi superior à brasileira. Esta mesclou títulos muito bons (Ausência e Ponto Zero) a outros menos estimulantes. Essa mistura entre títulos mais autorais e outros de melhor comunicação com o público é interessante. Evita que o festival se transforme em gueto, como acontece com alguns. Porém, haveria que se buscar filmes mais populares e que também se destaquem pela qualidade, ou pela originalidade. O fato é que a mostra competitiva de Gramado perdeu muito com a eliminação de véspera de Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert, um raro título que reúne essas qualidades.

Houve outras atividades interessantes. Destaco o debate com o crítico gaúcho Enéas de Souza, cujo livro fundamental, Trajetórias do Cinema Moderno, completava 50 anos de publicação. Em debate mediado por Luiz Carlos Merten e por mim, Enéas deu um show de lucidez, humor e profundidade teórica. É um gosto tê-lo como amigo e um estímulo contar com ele como colega de profissão.

Gostei menos dos debates dos filmes. Não os acompanhei na íntegra, pois era o horário que eu tinha para escrever alguma coisa. Mas parece que se transformaram numa fogueira de vaidades de jornalistas, mais preocupados em brilhar nas perguntas muito longas do que obter alguma coisa nas respostas. Seria preciso rever o formato, cobrar mais objetividade, sei lá, mas alguma coisa precisa ser feita para que esse precioso instrumento de troca de ideias não se perca pelo excesso de vaidade dos participantes. Ego todo mundo tem, não é? Mas precisa controlar para manter a sociabilidade em níveis razoáveis.

A mostra de longas gaúchos apresentou alguns títulos interessantes. Destaco Errante, de Gustavo Spolidoro, pela liberdade narrativa e sentido de aventura, pelo prazer que dá a quem o assiste. Não sei por que não estava na mostra competitiva principal. Os curadores não vivem se queixando de que não encontram inéditos em quantidade para fazer uma mostra só com filmes que ninguém conhece? Quando aparece um, deixam escapar. Quem entende?

Todos os premiados:

Curta-metragem brasileiro

Melhor Desenho de Som: Tiago Bello, por “O Teto Sobre Nós”

Melhor Trilha Musical: Felipe Junqueira e Samuel Ferrari, por “Miss & Grubs”

Melhor Direção de Arte: Welton Santos, por “Miss & Grubs”

Melhor Montagem: Chico Lacerda, por “Virgindade”

Melhor Fotografia: Arno Schuh, por “O Corpo”

Melhor Roteiro: Tiago Vieira e Fabrício Ide, por “Quando parei de me preocupar com canalhas”

Melhor Atriz: Giuliana Maria, por “Herói”

Melhor Ator: Matheus Nachtergaele, por “Quando parei de me preocupar com canalhas”

Prêmio Especial do Júri: “Haram”

Melhor Filme Júri Popular: “Bá”, de Leandro Tadashi

Melhor Diretor: Bruno Carboni, por “O Teto Sobre Nós”

Melhor Filme: “O Corpo”, de Lucas Cassales

Prêmio Canal Brasil: “Dá Licença de Contar”, de Pedro Serrano

Júri da Crítica – Curta-Metragem: “Dá Licença de Contar”, de Pedro Serrano

 

Longas estrangeiros

Melhor Fotografia: Nicolas Ordoñez, por “Venecia”

Melhor Atriz: Claudia Muñiz, Marianela Pupo e Maribel García Garzón, por “Venecia”

Melhor Roteiro: Carlos Armella, por “En La Estancia”

Melhor Ator: Gilberto Barraza, por “En La Estancia”

Melhor Filme Júri Popular: “Ella”, de Libia Stella Gómez

Melhor Diretor: Kiki Alvarez, por Venecia

Melhor Filme: “La Salada”, de Juan Martin Hsu

Prêmio Dom Quixote: “En La Estancia”, de Carlos Armella

Júri da Crítica – Longa Estrangeiro: “La Salada” de Juan Martin Hsu

 

Longas Brasileiros

Melhor Desenho de Som: “Ponto Zero”

Melhor Atriz Coadjuvante: Fernanda Rocha, por “O Último Cine Drive-In”

Melhor Ator Coadjuvante: Otavio Muller, por “Um Homem Só”

Melhor Trilha Musical: Alexandre Kassin, por “Ausência”

Melhor Direção de Arte: Maíra Carvalho, por “O Último Cine Drive-In”

Melhor Montagem: Frederico Brioni, por “Ponto Zero”

Melhor Fotografia: Adrian Tejido, por “Um Homem Só”

Melhor Roteiro: Chico Teixeira, César Turim e Sabina Anzuategui, por “Ausência”

Melhor Atriz: Mariana Ximenes, por “Um Homem Só”

Melhor Ator: Breno Nina, por “O Último Cine Drive-In”

Melhor Filme Júri Popular: “O Outro Lado do Paraíso”, por André Ristum

Melhor Diretor: Chico Teixeira, por “Ausência”

Melhor Filme: “Ausência”, de Chico Teixeira

Júri da Crítica – Longa Brasileiro: “O Último Cine Drive-In”, de Iberê Carvalho