Audálio Dantas, entrevista com um grande jornalista
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Audálio Dantas, entrevista com um grande jornalista

Luiz Zanin Oricchio

04 de agosto de 2012 | 10h12

 

Aos  80 anos, que não aparenta de jeito nenhum, Audálio Dantas é um mestre. Um mestre do jornalismo, sereno, incisivo e sem sinal de vaidade. Quem o conhece sabe da trajetória de vida exemplar. Das grandes reportagens em jornais e revistas O Cruzeiro e Realidade. Da coragem na condução do Sindicato dos Jornalistas em sua hora mais dramática, a do assassinato do jornalista Vladimir Herog nos porões do Doi-Codi, durante a ditadura militar.

 

Dessa faceta de jornalista exemplar, temos uma boa amostra em Tempo de Reportagem, que a editora Leya lança agora. São 13 relatos pinçados por Audálio de um longo trabalho na imprensa na condição de repórter, daquele tipo que, como se diz no jargão do ofício, não pode ter medo de gastar as solas dos sapatos, pois é nas ruas que estão as boas histórias e não no ar refrigerado das redações.

 

Da atuação política ficaremos sabendo um pouco mais adiante, quando lançar A Segunda Guerra de Vlado Herzog, editado pela Civilização Brasileira e que chega às livrarias em outubro. No livro, Audálio resgata a participação do Sindicato dos Jornalistas nesse episódio, um marco trágico pelo assassinato de Vlado, mas também divisor de águas do enfrentamento da ditadura pela sociedade civil.

 

Abaixo, a entrevista concedida por Audálio ao Sabático

 

 

Sabático – De todos os textos que você publicou em sua longa carreira, escolheu 13 para esta coletânea. Com que critério fez a seleção?

Audálio – Eu já havia publicado um livro chamado O Circo do Desespero, título de uma das reportagens, com 10 textos. Agora reuni mais dois, um sobre A Carolina Maria de Jesus, e outro sobre uma maratona do beijo, uma prova bastante parecida com a da maratona da dança, e que eu escrevi para a Playboy em 1993. Tirei também uma matéria chamada Restos, sobre pessoas que vivem do lixo, que acho demagógica. Mas há outra novidade. Para este livro, escrevi uma espécie de making of de cada reportagem.  Quer dizer, uma apresentação de cada uma delas, uma reavaliação desses textos, alguns já antigos, pelo meu olhar contemporâneo. O interessante é que às vezes o making of é tão ou mais extenso que a reportagem em si.

 

Sabático – Desses textos, qual você considera o mais importante?

Audálio – Sem dúvida a reportagem sobre a Carolina Maria de Jesus, que teve uma repercussão imensa, mudou a vida da personagem e também a minha. É um texto do qual eu não gosto muito, mas ele tem essa importância. E é exemplo de como um repórter sai da redação atrás de uma coisa e pode encontrar outra, se estiver de olhos abertos. Eu saí para fazer uma matéria sobre uma favela que estava se formando, no Canindé, na beira do Tietê, e descobri essa mulher que escrevia, mantinha um diário, tinha poemas e tudo o mais, e já andara por redações de jornais tentando em vão chamar a atenção para o seu caso. Não gosto do meu texto, tem muito adjetivo, é até piegas. Serviu para revelar o caso e possibilitou a publicação do livro da Carolina. Tirou 100 mil exemplares, isso nos anos 50, e foi traduzido em vários países. O prefácio da edição em italiano é do Alberto Moravia.

 

Sabático – Há essa constante na maior parte das suas reportagens, a presença do povo como personagem, não é? Bem distante do jornalismo de celebridades atual. Você não tinha dificuldade em vender algumas dessas pautas?

Audálio – Sempre tive essa busca por assuntos de fundo social. O tempo era outro, mesmo assim houve um editor que me censurou por colocar negros e pobres como personagens. Por exemplo, no caso de O Circo do Desespero, era uma abordagem diferente na cobertura habitual do carnaval, os desfiles, as mulheres gostosas, os bailes. Aqui, o caso era outro. Eram miseráveis atrás do prêmio, que se matavam numa maratona de dança interminável. Por sorte, o editor de O Cruzeiro, na época, era um intelectual, um homem sensível, Odylo Costa, filho. Entreguei o texto e ele, do Rio, mandou um telegrama dizendo que havia chorado ao lê-lo. Como digo no livro, acho que foi o maior elogio que recebi em minha carreira de repórter.

Sabático – No entanto, o texto não é piegas…

Audálio – Sempre o que pretendo é contar a história, da melhor maneira possível, sem chantagear ninguém ou procurar comover.

 

Sabático – Sim, mas os textos são fortes, emocionam e fazem pensar. Buscam assuntos fortes. Há uma proximidade temática entre essa reportagem sobre a a dança e a outra sobre a maratona do beijo, que fecha o livro.

 

Audálio – São parecidas por esse aspecto, o mundo cão, armado para explorar  pessoas desesperadas que tentam ganhar alguma coisa. Mas se você reparar, no primeiro caso são miseráveis atrás de uma recompensa para garantir necessidades básicas, como alimento. No outro, já se disputava um automóvel, um símbolo de status. No fundo, a mesma coisa, a exploração das pessoas, transformadas em espetáculo na sua agonia.

 

Sabático – A mais dura de todas, me parece, é a do Juqueri – Nossos Desamados Irmãos Loucos. E que também apresenta uma inovação formal da técnica jornalística. É um texto no qual se vê a compaixão pelo outro.

 

Audálio – Sim, para fazer uma reportagem desse tipo você tem de ser um observador. Mas precisa se identificar com o outro, com a dor do outro. Não existe a neutralidade; tem o seu ponto de vista ali. E, quanto à forma, como aquele era um universo fragmentado, eu também escrevi em fragmentos, em flashs isolados, que faziam sentido no conjunto. Faço um tipo de jornalismo que não se enquadra naquele esquema do lead, das informações básicas, etc. Acho que se pode usar técnicas da literatura, como supor um determinado pensamento na cabeça de um personagem. Mas tenho receio de que a expressão ” jornalismo literário” leve a pensar que estamos inventando alguma coisa, que estejamos fazendo ficção. O jornalista deve observar os fatos, ater-se às informações. Pode escrever como ficcionista, mas não fazer ficção. Deve também ouvir o máximo possível de pessoas, como fiz em Chile 70, logo após da eleição de Salvador Allende. Conversando com as pessoas de diferentes pontos de vista, percebia-se logo onde aquilo poderia dar. Não é algo que se faça num dia ou dois. Percorri o país de norte a sul, por mais de 3500 quilômetros e ouvi dezenas de pessoas antes de escrever.

 

Sabático – E quanto ao livro sobre o caso Vladimir Herzog?

Audalio – A Segunda Guerra de Vlado Herzog é um livro que eu estava devendo havia 37 anos. O caso já foi esmiuçado de vários ângulos, houve até filme a respeito, mas estava faltando colocar em destaque a atuação do Sindicato dos Jornalistas naquela ocasião. A resistência, o culto ecumênico na Catedral da Sé, toda a reação à morte do Herzog foi um desafio à ditadura, um divisor de águas no processo de liquidação do autoritarismo, e o nosso sindicato teve participação importante em tudo isso.

 

Sabático – Como você o escreveu?

Audalio – É uma história do Vlado, em sua parte biográfica. E a história daquele período, e das circunstâncias que o levaram à morte. Eu não havia anotado nada na ocasião. Levei um ano e meio lembrando e escrevendo. Nas horas vagas, é bom que se diga, pois não interrompi outras atividades profissionais para fazer esse livro. Fui lembrando. Há uma parte do livro que é um diário em primeira pessoa, o resto é em terceira pessoa. Há esse lado íntimo, pessoal. Mas também entrevistei muita gente. Ouvi mais de 50 participantes dos fatos, como José Mindlin, Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Henry Sobel, jornalistas que haviam sido presos antes do Vlado como Sergio Gomes da Silva, Paulo Markun, Duque Estrada, a Clarice Herzog, muita gente.  Enfim, é um livro que eu sentia que devia ser escrito.

(Sabático)