Atualização de Aruanda
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Atualização de Aruanda

Luiz Zanin Oricchio

14 de dezembro de 2015 | 13h52

Como não havia postado até agora, seguem abaixo as atualizações do Fest-Aruanda 2015, segundo as três matérias que enviei ao Caderno 2 e que aqui são publicadas na íntegra. A leitura do post dá ideia do que foi o Aruanda até a noite de ontem, na visão deste crítico, é claro. 

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O Fest-Aruanda chega à 10.ª edição e promete fazer bonito. A mostra de 2015 começa amanhã em João Pessoa, na Paraíba, com a exibição, fora de concurso, de Chatô, de Guilherme Fontes. Na sexta, será realizado um esperado debate sobre o filme, reunindo o diretor, o escritor Fernando Morais e o ator Lima Duarte, além de estudiosos e cineastas, como o documentarista Vladimir Carvalho. Fontes é o diretor do filme, que levou quase 20 anos para ficar pronto. Morais, o autor do livro Chatô – o Rei do Brasil, biografia em que o longa foi baseado. Marco Ricca, que também lá estará, interpreta o personagem. E Lima? Bom, o ator conheceu muito bem o personagem, o jornalista Assis Chateaubriand, e com ele conviveu. Trabalharam juntos na TV Tupi, e, embora não esteja nem na biografia nem no filme, terá histórias saborosas para contar sobre o magnata da imprensa brasileira, o William Randolph Hearst tupiniquim. O debate será, sem dúvida, antológico.

Também na sexta começa a mostra competitiva, composta por sete longas. Invólucro, de Caroline Oliveira (PE), Para Minha Amada Morta, de Aly Muritiba (PR) e Travessia, de João Gabriel (BA) são os novatos que concorrem aos troféus Aruanda. O experimentado Roberto Berliner (RJ) traz Nise, o Coração da Loucura (RJ). E cineastas de longo curso do cinema brasileiro entram no páreo: Walter Lima Jr. com Através da Sombra, (RJ), Júlio Bressane com Garoto (RJ) e Walter Carvalho com Um Filme de Cinema (RJ).

O festival fecha dia 16 com a exibição de Chico, Um Artista Brasileiro, de Miguel Faria Jr., terno e estupendo documentário sobre Chico Buarque, que tem encantado as plateias de cinema nas cidades onde já estreou. Inédito em João Pessoa, dará fecho emotivo e em alto-astral para a mostra. Um tipo de clima de que, convenhamos, o País anda bem necessitado.

O foco desta 10.ª edição do Aruanda é a Paraíba. A exibição de Chatô tem tudo a ver com isso. Afinal, o personagem polêmico, o jornalista Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo (1892-1968), é paraibano de Umbuzeiro. De lá saiu para se tornar um dos brasileiros mais influentes de sua época, fundando jornais, rádios e emissoras de TV, intervindo na política, no mundo empresarial e nas artes, através de meios nem sempre ortodoxos. Seja qual for a ideia que dele se tenha, foi um personagem e tanto. Dessa forma, cheia de paradoxos, é retratado na fascinante biografia escrita por Fernando Morais. Volta, agora, na pele de Marco Ricca, no não menos polêmico longa de Fontes. A produção respondeu a processos por prestações de contas e mau uso de dinheiro público. Dizia-se que o filme nem mesmo existia. Existe e está aí, para ser comentado, amado ou odiado.

Geraldo Vandré, no debate

Geraldo Vandré, no debate

Outra figura não menos polêmica que promete dar as caras em João Pessoa é o cantor e compositor Geraldo Vandré. Esse, todos conhecem: o Vandré que empolgou o Maracanãzinho com Pra não Dizer que Não Falei das Flores, em 1968, canção transformada em hino da resistência durante a ditadura, e que teve de se exilar para escapar à ira dos militares. Vandré que, de volta anos depois, surpreendeu a todo mundo, em especial à esquerda, com sua inesperada intimidade com a Força Aérea Brasileira. Ele, um perseguido político, voltava agora nas asas da Aeronáutica, para a qual, inclusive, compôs uma peça musical, Fabiana (em alusão à FAB). Vandré, vale dizer, é personalidade a ser resgatada (talvez até de si mesmo). Não foi apenas cantor e compositor engajado. Foi artista de grande recurso em sua veia lírica e o próprio cinema muito deve a ele. Em especial pela inspirada trilha composta para A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos. Esse, que é um dos maiores filmes do cinema nacional, não seria a mesma coisa sem a magnífica música de Vandré.

Enfim, não apenas pela qualidade da programação, mas pela dos seus convidados, o Aruanda consegue driblar as dificuldades econômicas que atingem todos os eventos culturais do País, e promete sua edição mais completa e brilhante já no crepúsculo do triste ano de 2015.

O festival, afinal de contas, tem nome a zelar. É o único em seu gênero que adota o título de um filme. Aruanda (1959-60), de Linduarte Noronha (1930-2012), é tido como precursor do Cinema Novo. Em forma de documentário ficcional, investiga a história e o cotidiano dos moradores de um quilombo na Serra do Talhado, que viviam isolados do País. Um clássico.

Os longas em competição

‘Invólucro’, de Caroline Oliveira (PE)

‘Para Minha Amada Morta’, de Aly Muritiba (PR)

‘Travessia’, de João Gabriel (BA)

‘Nise, o Coração da Loucura’, de Roberto Berliner (RJ)

‘Através da Sombra’, de Walter Lima Jr. (RJ)

‘Garoto’, de Julio Bressane (RJ)

‘Um Filme de Cinema’, de Walter Carvalho (RJ)

 

O debate de Chatô – o Rei do Brasil foi o mais movimentado da história do festival. Reuniu os responsáveis diretos pelo filme – o diretor Guilherme Fontes, o autor do livro, Fernando Morais, o intérprete do personagem, Marco Ricca – e mais professores universitários e gente que havia convivido com Assis Chateaubriand, como o ator Lima Duarte e o documentarista Vladimir Carvalho. Até o compositor Geraldo Vandré participou, dizendo que o cinema nacional não terá futuro enquanto não se converter em indústria. A sala de hotel em que se deu o encontro esteve lotada durante as quatro horas em que filme e personagem foram apaixonadamente discutidos.
O mínimo que se pode dizer é que o controverso Assis Chateaubriand ganhou um debate à altura de sua personalidade vulcânica. Escapou por pouco da santificação, mas é inegável o fascínio que ainda exerce sobre os que dele se ocuparam em livros, filmes ou estudos. O jornalista Fernando Morais, cujo livro se tornou uma espécie de paradigma das biografias nacionais, lembrou Chatô em atos de generosidade e mesquinhez. “Chateubriand era as duas coisas ao mesmo tempo”, diz, e reduzi-lo a uma ou a outra é apequenar o personagem”, diz.

O ator Lima Duarte, que encantou a plateia com sua verve, disse que a relação com Chatô era pessoal e envolvia apenas os anos finais da vida do empresário. Chateuabriand estava paralisado e tinha muita dificuldades para se expressar em razão do acidente vascular cerebral sofrido. Lima era apenas um jovem empregado da Tupi, uma das empresas dos Diários Associados, e foi chamado à casa do patrão. Conseguiu compreendê-lo e com isso o cativou. “Viramos bons amigos até o final da vida dele”, conta.

Já a professora de História Monique Citadini subiu o patamar de racionalidade da discussão. Apontou tendência determinista tanto no livro de Morais como no filme de Fontes – “Dão a entender que, sem a presença de Chatô, certos fatos da História não se produziriam”. Mas admite que o estudo do personagem pode ser interessante para sacar o poder da mídia em formar convicções e consensos. E tentou mostrar que a caracterização de Chatô como “tropicalista” era profundamente equivocada. “Ele tinha profundo desprezo pela cultura popular e pela burguesia”, disse. “No fundo, Assis Chateubriand é fruto da aristocracia açucareira nordestina e se pautava por valores culturais europeus”.

No entanto, os termos “tropicalismo” e “carnavalização” continuaram a emergir no debate. Por exemplo, na aproximação feita entre Chateaubriand e Getúlio Vargas, “dois construtores do país”, segundo Chico Pereira, pró-reitor de cultura da Universidade Estadual da Paraíba. Temperamentos opostos, Chatô e Getúlio chegaram a partilhar uma amante e mostravam-se dispostos a unificar o país. Um através de medidas políticas racionais, outro pela prática pouco ortodoxa do jornalismo. O filme seria resultado do esforço de compreensão de tal ambivalência e daí sua pegada anárquica, tida como sinônimo de tropicalismo.
Já o diretor Guilherme Fontes admitiu que sua motivação para fazer um filme sobre o personagem foi múltipla. Vivia uma crise matrimonial, leu o livro de Morais e achou que aquele desafio de transpô-lo para o cinema poderia ter valor terapêutico. Mas admite que a premência da época foi o determinante maior: “Veio de uma inquietação com a mídia. Vivíamos o segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso e me surpreendia o silêncio em torno da reeleição”, diz. Desse modo, através de Chatô ele viu o bom caminho para fazer essa meditação sobre as relações entre mídia e o poder. Tema atual, embora o empresário tenha morrido em 1968.

Primeiros longas da competição

 

Depois de um começo em alta voltagem com a exibição e debate do polêmico Chatô, de Guilherme Fontes, o Fest Aruanda apresentou os primeiros longas concorrentes aos troféus. Garoto, de Julio Bressane, Invólucro, de Caroline Oliveira, e Através da Sombra, de Walter Lima Jr. tiveram boa recepção de público, cada qual à sua maneira e dentro de suas respectivas possibilidades.

Vamos dizer que Bressane não é dos cineastas mais fáceis, e nem faz questão de aplainar as coisas para ganhar a simpatia dos espectadores. Pelo contrário, trabalha pela utopia de trazê-los para as dificuldades que suas obras propõem. Esta não é diferente de outras, nesse particular. Vagamente inspirada num relato de Jorge Luis Borges sobre Billy The Kid (O Assassino Desinteressado Bill Harrigan), põe em cena um casal de jovens, Ela e Ele (Marjorie Estiano e Gabriel Leone). Eles se enamoram, vão a uma casa onde ocorre um crime. Depois empreendem uma fuga. Esta os leva à paisagem lunar do Lajedo de São Mateus, na Paraíba, palco também de outro dos filmes de Bressane, São Jerônimo.

A parte do Lajedo é a melhor. Não há diálogos. O diretor narra apenas através das imagens fantásticas do local. Leva ao extremo o cinema chamado “de atmosfera”, dispensando o recurso verbal e conduzindo o espectador pelo registro visual, mas também pelo espetacular trabalho de sons. Como se a natureza falasse pelo silencioso personagem masculino. Bressane, cada vez mais, busca um cinema metafísico, escavando camada após camada em sua recusa do lugar-comum. Torna-se difícil? Sim, e também indispensável.

Invólucro é um interessante documentário de Caroline Oliveira. Ela começa por documentar sua própria gravidez. Mas não se trata de um filme em primeira pessoa, autocentrado e biográfico, como virou moda. Após se mostrar à câmera, ela vai em busca de outras personagens que, em aparência, nada têm comum com ela mesma: duas mulheres já maduras que decidiram não ter filhos (uma médica e outra produtora cultural) e uma transexual. Invólucro fala do corpo feminino. De suas transformações, da angústia que produz, do apaziguamento que, em boa parte, funciona no reconhecimento do outro. Às vezes um tanto redundante, vai ao seu tema com ousadia e originalidade.

Em Através da Sombra, o tarimbado Walter Lima Jr. enfrenta um texto clássico do suspense – A Volta do Parafuso, de Henry James, já adaptado outras vezes. Em 1961, com o título de Os Inocentes, de Jack Clayton, tem Deborah Kerr no papel principal. O mesmo relato foi às telas em 2001 sob o título de Os Outros, direção do espanhol Alejandro Amenábar, com Nicole Kidman. Agora é Virginia Kavendish quem interpreta a governanta que se ocupa da educação de duas crianças em uma mansão soturna.

O filme é dirigido de maneira clássica, com uma fotografia sóbria e envolvente de Pedro Farkas. Lima Jr. não cede ao facilitário dos sustos fáceis (embora alguns de fato ocorram), mas investe mais na criação de um clima pesado, que vai se adensado a cada cena. À maneira dos antecessores, o filme começa por confiar no ponto de vista da narradora até que essa passa a se mostrar instável. O que estará de fato acontecendo?, é o que se pergunta o espectador, molestado por uma quebra sistemática e hábil do realismo.

 

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