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As Penas do Ofício

Luiz Zanin Oricchio

15 Fevereiro 2007 | 16h16

Em geral, não ligo muito para coletâneas. Tendo a achar que texto de jornal serve para aquele dia e nada mais. O mesmo para escritos em revistas . Têm duração efêmera. Outro dia um amigo, editor, me sondou para publicar uma coletânea de minhas críticas de cinema. Enrolei, sugeri que deixássemos para o ano seguinte, disse que dava mais trabalho selecionar do que escrever outras. Protelei.

Mas não existe regra sem exceção. Tenho grande estima pelo meu volume de 30 Ans au Cinéma, com os textos de cinema que Alberto Moravia escreveu por três décadas na revista L’Espresso. Há ainda as coletâneas famosas de Paulo Emilio Salles Gomes com os artigos publicados no Suplemento Literário do Estado de S. Paulo, as críticas de Francisco Luís de Almeida Salles reunidas por Carlos Augusto Calil, as coletâneas de José Lino Grünewald e Antonio Moniz Viana organizadas por Ruy Castro, etc. Lembrar de tantas exceções me faz quase mudar de opinião, porque, é claro, tudo depende da qualidade do texto. Ele dura se for bom, independentemente do suporte, digamos assim: jornal, revista, livro, internet, blog, o que for.

A mais recente dessas exceções me chegou outro dia às mãos: o volume As Penas do Ofício, com os ensaios publicados por Sérgio Augusto na revista Bravo!, e agora editadas pela Agir. Nunca fui lá muito fã da Bravo!, apesar de amigos dizerem maravilhas da revista. Sempre a achei um pouco, como diria, com o nariz em pé. Sabe? Aquela sofisticação auto-suficiente que parece mirar o mundo de cima para baixo. Não me faz muito bem ao fígado. Mas, mesmo assim, quando a revista me caía nas mãos (não me lembro de tê-la comprado jamais) sempre ia direto para a seção de Ensaios, que aparecia nas primeiras páginas. E, nela, Sérgio Augusto sobressaía, com sua prosa elegante, precisa, erudita sem afetação.

Livres agora do contexto da revista, esses ensaios me parecem ainda melhores. Não li todos. Vou aos pouquinhos, ao acaso, ao sabor dos interesses. Li dois deles, excelentes, sobre Vinicius de Morais, santo de minha devoção. Sérgio fala de duas facetas menos conhecidas do poeta, o crítico de cinema e o crítico de música, métiers que Vinicius exerceu em certos períodos de sua vida. Vinícius era menos um crítico de filmes do que um cronista de cinema, o que só fala em seu favor. E, como crítico de música, parecia mais tolerante e condescendente do que arrasador, um “crítico construtivo”, como Sérgio Augusto o define até mesmo no título do artigo.

Li também Locomotiva Arlequinal, em que Sérgio Augusto, carioca militante, exercita sua fina ironia em relação a São Paulo. É texto divertido e Sérgio, como bom carioca, tem vocação antropológica. Como um daqueles antigos viajantes, empenha-se em observar e registrar tudo o que difere da sua terra natal. O Rio é o centro e a periferia interessa na medida em que o ilumina por aquilo que dele destoa. A título de exemplo: uma vez eu estava visitando as catacumbas de Roma e ouvi o sotaque inconfundível de um turista se dirigindo ao vizinho: “No Rio é diferente…” Não sei o que no Rio poderia ser diferente das catacumbas cristãs, e também não parei para perguntar.

Mas, enfim, o texto do Sérgio é ótimo. Fala de como Paulo Emilio o trouxe para conhecer a Paulicéia, de como freqüentou points daqueles anos (sixties, creio), como o Bar do Museu, e de como se convenceu que para manter seu bom relacionamento com a cidade seria melhor nunca viver aqui e apenas escrever para as publicações paulistanas. Como faz até hoje, para sorte nossa e prejuízo do Rio, que não sabe o que perde.