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As Mulheres do Sexto Andar

Luiz Zanin Oricchio

15 de fevereiro de 2012 | 12h02

O que é verdade de um lado dos Pirineus pode ser mentira do outro. Essa velha frase de Michel de Montaigne fala da diversidade entre povos, no caso entre espanhóis e franceses. É o tema de fundo dessa, vamos chamá-la assim, comédia romântica intitulada As Mulheres do 6º Andar, dirigida por Philippe Le Guay.

Como tema não é muito novo e a história também não parece muito crível. Apesar de tudo isso, passa por um conto romântico interessante, com bons momentos e cenas tocantes.

A história é a de um corretor francês, Jean-Louis (Fabrice Luchini), muito bem casado com Suzanne (Sandrine Kimberlain), moradores, ambos, de um estupendo apartamento num bairro rico de Paris. O caso se passa no início dos anos 1960 e dá um ar meio retrô ao filme. Enfim, o casal burguês, por qualquer motivo, demite uma velha empregada e não consegue tocar o cotidiano sem ajuda. Contrata então uma jovem espanhola, Maria (Natalia Verbeke), recém-chegada do seu país em busca de melhores condições de trabalho. Ela e outras conterrâneas moram no andar de cima, nos quartinhos para elas reservados, e constituem uma espécie de comunidade à parte.

Nesse ponto é bom esclarecer que, algumas dessas senhoras espanholas, dedicadas às prendas domésticas da burguesia parisiense, são atrizes conhecidas do mundo de Pedro Almodóvar: Carmem Maura e Lola Duenãs. Quem já as viu sabe da potência dramática e, mais do que tudo, cômica, que são capazes de imprimir às suas cenas.

O filme tem como ponto de equilíbrio o contraste entre dois estilos de vida. Ambos se julgam os melhores e verdadeiros. A finesse travada dos proprietários parisienses contra o entusiasmo das espanholas, pobres porém felizes.

Claro, estamos aqui na zona dos clichês, esse terreno pantanoso da ficção, e não apenas do cinema. O que faz a força de um clichê é que, de certa maneira, ele é verdadeiro. Isto é, sedimentado por séculos de assentimento. Há povos que são mais esquivos e formais que outros. Isso faz parte da nossa observação cotidiana. Basta viajar um pouco para percebê-lo. Por outro lado, nunca é sábio colocar toda uma coletividade no mesmo compartimento. Generalizações são enganosas e, em seu nome, cometemos injustiças e sofremos desilusões.

Na arte, esse tipo de tipologia baseada em lugares-comuns está sempre a um passo do ridículo. Por sorte, não é o caso em As Mulheres do 6º Andar.Talvez haja certo exagero na maneira como Jean-Louis se fascina pelo modo de vida de suas empregadas. Talvez a familiaridade tão rapidamente adquirida seja difícil de conceber, em especial por quem já teve a experiência de viver naquela sociedade e conhece as regras de formalidade que a tornam rígida, em especial no período considerado pelo filme. Mas pode-se perdoar esse deslize da verossimilhança em nome da beleza da fábula.

E, claro, concedida essa tolerância, podemos apreciar o trabalho muito bom de Luchini, um tipo de ator sempre indicado para interpretar nobres e grã-finos. Carmem Maura, Lola Dueñas e as outras espanholas favorecem o contraponto a Luchini com seus gestos largos, a generosidade, vozes altas e frases francas. E um igualmente sincero interesse pelo outro. Dizer que a vida simples pode ser feliz pode parecer outro clichê. Mas, como todos os outros, não teria também um fundo de verdade?

(Caderno 2)

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