As mortes de dois grandes: Jean-Claude Carrière e Giuseppe Rotunno
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As mortes de dois grandes: Jean-Claude Carrière e Giuseppe Rotunno

Luiz Zanin Oricchio

09 de fevereiro de 2021 | 11h19

Cena de ‘Amarcord’, fotografia de Giuseppe Rotunno

Foram-se dois grandes, praticamente ao mesmo tempo. O fotógrafo italiano Giuseppe Rotunno e o escritor e roteirista francês Jean-Claude Carrière. 

Num mundo cinematográfico dominado pela figura do diretor, somos obrigados a referenciá-los dizendo que Carrière, que faleceu aos 89 anos, é conhecido por sua colaboração escrita com vários filmes de Luis Buñuel. E que Rotunno, morto aos 97 anos, trabalhou com Visconti e, sobretudo, Federico Fellini em diversas obras. 

Por coincidência, fiz outro dia mesmo uma citação de Carrière, lida em seu fundamental Prática do Roteiro Cinematográfico (em parceria com Pascal Bonitzer), na qual relativiza seu próprio trabalho: 

“O roteiro representa um estado transitório, uma forma passageira destinada a se metamorfosear e a desaparecer, como a larva ao se transformar em borboleta. Quando o filme existe, da larva resta apenas uma pele seca, de agora em diante inútil, estritamente condenada à poeira.” (p.11).

Certo, pode até ser. Mas de quem escreveu O Discreto Charme da Burguesia, O Fantasma da Liberdade, Via Láctea: o Estranho Caminho de San Tiago e tantos outros, pode-se dizer que tem uma das escritas mais duradouras de todos os tempos. Para não lembrar do formidável Meu Último Suspiro, autobiografía de Buñuel escrita por ele, Carrière. 

Carrière era uma usina de ideias. Fértil, original e prolífico. Por isso, o jornal Libération, falando de sua morte, diz que a França (e o mundo) não haviam perdido uma biblioteca inteira, mas várias delas. 

Já Giuseppe ‘Peppino’ Rotunno assina o desenho visual de nada menos que oito filmes de Federico Fellini, vários de Luchino Visconti, entre eles duas obras-primas como Rocco e seus Irmãos e O Leopardo. Com Fellini, fez Amarcord, Roma, Casanova e Satyricon, entre outros. 

Por hábito, costumamos nos referir a esses filmes por seu conteúdo, esquecidos que não existe conteúdo sem forma. Fellini, através de Rotunno, chegou a um nível pictórico de alta sofisticação. Basta ver qualquer um dos filmes acima citados e imaginar o que seriam sem a fotografia muito inspirada do mestre Peppino. 

Desaparecimentos da ordem de grandeza dos de Carrière e Rotunno, nos relembram algo que não deveríamos esquecer jamais: a natureza coletiva da obra cinematográfica. 

 

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