As lições de morte do Pastor Cláudio
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As lições de morte do Pastor Cláudio

Filme de Beth Formaggini expõe crimes praticados durante a ditadura, e reabre a questão da colaboração de setores empresariais em delitos contra os direitos humanos

Luiz Zanin Oricchio

18 de março de 2019 | 14h19

O pastor Cláudio diante das fotos de algumas vítimas da ditadura

O filme de Beth Formaggini traz um longo depoimento de Cláudio Guerra, entrevistado por Eduardo Passos, psicólogo e ativista de direitos humanos.

Foram cinco horas de gravação, em 2015, com um dispositivo cinematográfico simples e eficaz. O entrevistado fala, o entrevistador pergunta e o diálogo flui. Uma iluminação bem utilizada deixa Claudio Guerra em parte na sombra e em parte na luz. É um estudo em luz e sombra sobre a verdade e a mentira. Um estudo sobre os nossos anos de chumbo.

Perguntei à diretora Beth Formaggini qual havia sido a negociação para que ele desse a entrevista. E qual seria, na opinião dela, a motivação do entrevistado para expor seus crimes.

Beth disse que negociação nem existira. Entraram em contato com o pastor Cláudio e ele concordou em ser entrevistado, sem qualquer objeção. A motivação, pensa Beth, viria da necessidade de Cláudio se proteger. “Acho que ele diz uns 10% do que sabe e fez; os outros, ele oculta, como garantia de vida”, disse.

De fato, em determinados momentos, Cláudio diz que sabe muito e está vivo apenas porque outras pessoas estão instruídas a revelar tudo o que sabe caso ele venha a morrer. Pode ser.

Em todo caso, o filme é muito revelador. Cláudio fala, com toda a frieza, das pessoas que assassinou e dos corpos que ajudou a esconder, a serviço dos órgãos de repressão, durante a ditadura civil-militar (1964-1985). Converteu-se e hoje é pastor evangélico. Cláudio Guerra já é nome conhecido. É personagem do livro Memórias de uma guerra suja, dos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros (Topbooks). Também deu depoimento à Comissão da Verdade e uma entrevista a Alberto Dines no Observatório da Imprensa.

O personagem é impressionante. Relata sua história com a serenidade dos justos. Após um crime em Minas Gerais, foi sondado pelos órgãos de repressão e passou a agir. Assassinou algumas pessoas ligadas à luta contra a ditadura. Sumiu com o corpo de outras, mortas sob tortura. O dispositivo montado pelo filme potencializa a impressão. Diante de Guerra, são projetadas fotos de pessoas. Não se lembra de todas, porque a “memória está cansada” aos 75 anos. Mas se recorda de algumas. “Esse aqui eu matei. Esse outro incinerei no forno da usina”.

Esse ponto é importante, e, a meu ver, um dos temas principais desse documentário – a conivência de setores empresariais com o aparelho repressivo. Os corpos eram incinerados na Usina Cambahyba, em Campos (RJ). Guerra cita nomes dos mortos, cujos restos viraram cinzas neste empresa, entre eles o da química e professora da USP Ana Rosa Kucinski e o de David Capistrano da Costa.

Guerra dá detalhes de suas ações e não se furta em “reconstituir” o “tiro de misericórdia” em Nestor Veras, do PCB, que veio muito maltratado da tortura.

O hoje parece arrependido, pero no mucho. Defende-se dizendo que era uma “mula”, não enxergava nada (faz o gesto de viseiras) e limitava-se a obedecer ordens. Era um funcionário da ditadura e dos aparelhos de repressão. Não por acaso, o primeiro livro citado na bibliografia do filme é o de Hannah Arendt sobre o carrasco nazista Eichmann, no qual forja o conceito de banalidade do mal.

Cláudio fala muito de suas atividades e de outras ações da extrema-direita brasileira, como a morte de Vladimir Herzog e os atentados à OAB e ao Rio Centro. Opina com conhecimento de causa. Diz que o assassinato de Herzog, e o tosco laudo médico que dava a morte como suicídio, jogaram a imprensa contra o regime. “Até lá eles nos apoiavam, mas quanto mataram um jornalista a coisa virou”. Relata a tentativa de atentado ao Rio Centro com o distanciamento de um especialista. “Era uma bomba de baixa intensidade, mas provocaria um pânico danado lá dentro e causaria muitas mortes”. Tudo estava planejado para jogar a culpa na esquerda e assim abortar o processo de abertura política. Mas a bomba acabou explodindo no colo de um dos terroristas, matando-o e ferindo o outro. “Foi um erro; eles estacionaram o Puma debaixo de uma rede de alta tensão e a espoleta da bomba detonou”, diz Cláudio, que afirma ter feito curso de explosivos ministrado por professores norte-americanos.

Servindo sob as ordens do coronel Freddie Perdigão, do SNI, relata muitas outras ocorrências, como o acidente forjado que matou a estilista Zuzu Angel. “Ela se tornara incômoda porque tentava descobrir o paradeiro do filho, o Stuart Angel”. Uma foto mostra Perdigão no local do “acidente” que vitimou a estilista.

Nomes que financiavam os crimes são enunciados com todas as letras: donos de usinas, banqueiros, industriais, jornais. Faziam parte desse consórcio com a extrema-direita que visava eliminar fisicamente os opositores do regime.

Como ninguém foi condenado por esses crimes, nem executores, nem mandantes e nem patrocinadores, lavaram-se as mãos e o país continuou sua trajetória, com os assassinos à solta e seus operadores em paz consigo mesmos. Foi o legado da Lei da Anistia, de 1979, que passou a borracha sobre todos os crimes, mesmo os mais hediondos. Cláudio Guerra jamais foi preso pelos assassinatos e delitos que recorda com tanta tranquilidade. Ele e muitos outros jamais prestaram contas à Justiça. Estão por aí.

E talvez mais próximos do que supomos.

Na parte talvez mais importante do seu depoimento, Cláudio conta que ele e seus colegas não ficaram desempregados com o fim da ditadura. Foram reciclados para o trabalho de segurança em empresas privadas, no jogo do bicho, nos esquadrões da morte e na formação das milícias. Essas mesmas milícias que agora aparecem envolvidas no assassinato da vereadora do PSOL Marielle Franco e mantêm laços fraternos com a família presidencial.

Este é o Brasil, país cuja transição acomodatícia da ditadura para a democracia deixou muitas pontas históricas soltas e jogou muita sujeira para baixo do tapete. Esse lixo nunca removido acaba fermentando e contaminando o país. Essa fermentação de matéria pútrida é o que estamos assistindo agora, entre perplexos e assustados. No entanto, era bem previsível que tudo isso viesse a acontecer.

 

 

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