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As lágrimas na hora da verdade

Luiz Zanin Oricchio

11 de abril de 2007 | 12h55

Amigos, minha coluna de ontem no Esportes do Estadão:

O primeiro dever do cronista é não ser ingênuo. Assim, bem sei que Edmundo tem proposta dos Estados Unidos e pode transformar a etapa final da sua carreira em algo bem rentável. Nem por isso deixei de me emocionar com as lágrimas que ele derramou no final do infeliz empate do Palmeiras com o Guaratinguetá. Seja qual for seu rumo futuro, Edmundo deve ter sentido que havia entrado para valer no último ato do seu destino de jogador, quando deixará de ser atleta em atividade e passará para a chamada vida civil. Essa vidinha de qualquer um de nós, seres comuns, com seus altos e baixos, como filosofavam os ascensoristas.

Já a vida de jogador é uma verdadeira montanha-russa, sabemos todos. O próprio Edmundo teve essa sensação de maneira pronunciada nos últimos tempos. Muita gente questionou sua permanência no Palmeiras, dizendo que ele não passava de um “ex-jogador em atividade”. Não era assim e Edmundo muitas vezes carregou nas costas o fraco time do Palestra. Chegou a formar dupla promissora com Valdívia e ambos saíram consagrados na vitória por 3 a 0 sobre o arqui-rival Corinthians. Na decisão contra o Ipatinga, Edmundo teve a bola do jogo a seus pés naquele pênalti. Bateu para fora, como se sabe. Todos concordamos que errar é humano, mas sabemos também que aquele pênalti ele não poderia ter perdido. Algo ali se rompeu.

Então no domingo vimos a outra face do ídolo. O Edmundo frágil, talvez pequeno diante do fim que pode não acontecer agora, mas se aproxima de maneira inexorável. Nunca tive qualquer simpatia especial por ele. Nem antipatia, diga-se. Sempre o achei um jogador instável, individualista – como Romário também o é, e como são quase todos eles hoje em dia; aquele tipo de cidadão preocupado apenas em se dar bem e querendo que os outros se danem. Pois bem, desta vez ele tem toda a minha solidariedade. Sabemos como é difícil o fim de carreira de um jogador. Na plenitude da idade, ele é um velho para a sua profissão. Depois da fama, mergulhará no anonimato progressivo e, em seguida, no esquecimento. Essa triste especificidade da profissão de jogador está na origem do filme Boleiros, de Ugo Giorgetti, marco quando o assunto é o futebol visto pelo cinema, e que empresta seu título às nossas colunas no Estadão.

Aliás, o próprio Ugo é o “Boleiro” dos domingos e, neste último, escreveu um texto particularmente brilhante sobre a altivez alviverde. E bem a propósito, pois o Palmeiras vai precisar dela. No futebol não são apenas os jogadores que vivem na montanha-russa, mas os próprio clubes. O exemplo da hora é o Palmeiras. Há poucos dias parecia ter entrado numa espécie de círculo virtuoso. Teve seu título mundial reconhecido pela Fifa (inutilmente, segundo Giorgetti, para quem os palmeirenses, e apenas eles, teriam autoridade moral para reconhecê-lo). Sob Caio Jr. o time vinha encorpando a olhos vistos. Precisava reverter os 2 a 0 que sofrera em Ipatinga, e conseguiu empatar no primeiro tempo. Ficou nisso, vieram os pênaltis e o resto é história. Dependia das derrotas do Paulista e do Bragantino e de uma vitória simples sobre o Guará no domingo para se classificar nas semifinais do Paulistão. Os adversários perderam, mas o Palmeiras negou fogo. Será que a sorte vai inverter seu sinal na quarta-feira quando precisa ganhar do São Bento e secar o Bragantino que joga contra o Barueri? Não é impossível. Só improvável. Resta a altivez, que essa ninguém tira.