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As Flores de Kirkuk

Luiz Zanin Oricchio

23 de março de 2012 | 15h38

As Flores de Kirkuk começa por uma das cenas mais famosas da nossa época, a derrubada da estátua de Saddam Hussein quando o tirano deixou o poder após a invasão norte-americana ao Iraque. É uma cena interessante, pois, como todos sabem, a estátua de metal ficou presa pelo pé, como se o ditador se recusasse a apear do poder.

A sequência, tirada do noticiário de TV e divulgada no mundo todo, serve de prólogo a essa história de ficção ambientada ainda durante o regime de Saddam. Na verdade, é um love story político, que tem como protagonista um casal de médicos formado na Itália (o filme é co-produção italiana), a iraquiana Najla (Morjana Aloui) e o curdo Sherko (Ertem Eser). Sherko deixou a Itália e voltou para seu país. Mandou uma carta a Najla pedindo que ela o esquecesse. Ela faz o contrário: vai atrás do homem que ama.

Como o espectador verá, a ida de Najla ao Iraque é o mergulho em um pesadelo pintado com as cores da limpeza étnica levada por Saddam contra os curdos, intolerâncias variadas, corrupção, uso de tortura e armas químicas, desprezo pela condição feminina e pela vida em geral, e vai por aí. A ocidentalizada Najla sente o peso de considerar-se uma estranha em seu próprio país. Ao mesmo tempo, o contato com Sherko e com sua luta a conduzem à lenta e dolorosa reaproximação com suas raízes.

De início a história parece um pouco ingênua, mas logo essa impressão é abandonada. O que temos é um caso de amor, porém levado numa circunstância histórica das mais desfavoráveis. Nesse ponto o filme não difere de outros tantos feitos sobre o mesmo assunto e existe até certa ressonância, em algumas passagens, a Por Quem Dobram os Sinos, de Ernest Hemingway, filmado por Sam Wood em 1943. Mas, é claro, a referência maior é a Romeu e Julieta, o casal apaixonado que precisa enfrentar a inimizade das famílias. Só que aqui os Capuletto e os Montecchio são simplesmente duas nações que se detestam, sendo que uma, mais poderosa, humilha e deseja destruir a outra. É uma das tragédias contemporâneas, a dos curdos, como a dos palestinos.

O diretor Fariborz Kamkari apresenta esse que é o primeiro filme iraquiano sem a presença dos soldados norte-americanos no cenário, para radiografar as entranhas do país livre do viés ocidental. Afastar-se um pouco do lugar comum é fazer como o curdo Kamkari, mostrando que Saddam, depois demonizado na época da ocupação americana, foi fiel aliado do Ocidente e por uma simples e óbvia razão, o petróleo. Enquanto o status quo perdurava, os curdos podiam ser dizimados à vontade sem que ninguém, exceto eles mesmos, se importasse. Kirkuk, a que alude o título, foi uma das cidades do Curdistão iraquiano mais destruídas e bombardeadas ao longo dos anos 1980. É lá também que nasce uma estranha flor do deserto, belíssima e resistente às intempéries. A metáfora é bastante óbvia, mas, no caso, muito eficaz.

Como filme de denúncia, que não deixa de ser, As Flores de Kirkuk mantém um ritmo frenético. Possui uma luz bonita e, sem inventar, evita enquadramentos banais. Tem mérito cinematográfico, que vai além da “mensagem” justa que deseja passar. A atriz principal é agitada, inquieta, de acordo com a personagem que interpreta. Alguém que não se acomoda jamais, apesar de criada em uma cultura da passividade feminina. Na verdade, Najla vai na contramão desse estereótipo da mulher árabe. É, pelo contrário, muito mais decidida que os homens, os enfrenta, mesmo sabendo que pagará seu preço. Ela funciona como o elemento estranho na estrutura acomodada. Alguém que veio de fora, experimentou outra realidade e volta para questionar valores estabelecidos.  É o mito do estranho- familiar, aquele que foi, viveu outra vida, e voltou para mudar. Ou para tentar mudar, pois esse desejo imediato está sempre acima das possibilidades do indivíduo.

(Caderno 2)

 

 

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