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As Canções

Luiz Zanin Oricchio

10 de dezembro de 2011 | 20h54

No princípio era o espanto, pai de toda a filosofia e toda a arte. O cineasta Eduardo Coutinho não deixa de se espantar com um fato básico: “A necessidade que as pessoas têm de se comunicar, falar com o outro, abrir-se”. É o que está na base do seu cinema. A necessidade vital de diálogo, “que leva as pessoas a dizerem coisas incríveis diante da câmera”. Só que, desta vez, além de falar, como em seus outros filmes, as pessoas também cantam. Surge então esse documentário intitulado, de modo singelo, de As Canções.

O método de pesquisa não diferiu muito do dos filmes anteriores de Coutinho, autor de um clássico como Cabra Marcado Prá Morrer e filmes recentes marcantes como Santo Forte e Edifício Máster. Os personagens foram selecionados em vários pontos da cidade do Rio de Janeiro, pessoalmente, através da internet e anúncios em jornais. A pergunta básica era: “alguma canção marcou a sua vida?”. Em caso positivo, a pessoa estaria disposta a cantá-la e dar seu depoimento para um filme?

A pesquisa durou dois meses, durante os quais 237 pessoas participaram e 42 chegaram a ser filmadas. Na montagem final, restaram 18 depoimentos-canções. Os personagens escolhidos têm de 22 a 82 anos de idade. Cantam canções de todo o tipo. De Noel a Chico Buarque, passando pelo inevitável Roberto Carlos. Canções de amor, de saudade, de dor de cotovelo. Todo um imaginário brasileiro romântico desfila por esses depoimentos musicais.

O dispositivo cinematográfico é ainda mais depurado que o do célebre Jogo de Cena, filme em que Coutinho misturava personagens anônimos e atrizes famosas que interpretavam suas histórias. Neste, o cenário era o palco de um teatro, com um fundo de poltronas. “Agora é ainda mais despojado. Uma cadeira preta contra um fundo preto. As pessoas entram, cantam, falam e depois saem de cena”, diz. “Comparado com As Canções, Jogo de Cena era um verdadeiro Titanic”, brinca. De fato, tudo é simplificado ao nível de uma pobreza franciscana. Do cenário à interpretação das músicas, sempre a capella, sem acompanhamento, vai-se ao osso das emoções humanas com pouquíssimos elementos técnicos.

Coutinho diz que selecionou os personagens tanto pelo canto (“Era preciso um mínimo de qualidade vocal”) quanto principalmente pelo depoimento no qual explicavam por que aquela era a canção da sua vida. “Não queria uma definição técnica ou intelectual. Se o cara dizia, por exemplo, que havia escolhido certa música porque ela tinha um intervalo de quarta muito bonito, estava eliminado de cara”.

Não contavam, portanto, razões estéticas racionalizadas, mas sim o impacto emocional que determinada canção teve sobre a vida de alguém e a maneira como essa pessoa relatava a experiência emocional.

Havia muito Coutinho notara a importância da música na vida das pessoas. Quem não se lembra daquele personagem de Edifício Máster que conclui seu depoimento interpretando My Way, a canção celebrizada por Frank Sinatra? (Na verdade, a letra inglesa é de Paul Anka, versão de uma composição francesa chamada Comme d’Habitude, de Claude François e Jacques Revaux). A sequência era tão forte que o cineasta, avesso a melodramas, evitou terminar o filme com ela. Também em Jogo de Cena, uma das entrevistadas se emociona às lágrimas ao cantar Se Essa Rua Fosse Minha, porque ela lhe lembra o pai. Portanto, a ideia ficou e ele resolveu circunscrever a sua pesquisa da intimidade a esse registro musical na biografia de cada um.

Depois de Jogo de Cena, considerado uma revolução no documentário brasileiro (colocando em questão a fronteira entre o cinema documental e o ficcional), Coutinho rodou Moscou, bastidores da montagem de uma peça de Checkov. O filme foi considerado um sintoma de impasse por vários críticos, incluindo pesos-pesados como Eduardo Escorel e Jean-Claude Bernardet, admiradores do cinema de Coutinho. As Canções seria uma resposta a isso?
“Jamais”, diz Coutinho, “embora depois de Jogo de Cena de fato tudo seja mais difícil para mim”. Esse filme parece uma espécie de limite, obra de inventor e mestre ao mesmo tempo, difícil de ser ultrapassada. “Mas de qualquer forma, As Canções retoma Jogo de Cena e, como ele, não quer passar qualquer tipo de mensagem a ninguém”. Ele brinca que uma de suas frustrações é que nenhum dos personagens elegeu como canção de sua vida Mensagem, celebrizada na voz de Isaurinha Garcia. Cantarola: “Quando o carteiro chegou e meu nome gritou com a carta na mão…”. Esta seria a única “mensagem” que Coutinho admitiria em seu filme. “Adoro essa música”, diz. Mas ela não pintou no repertório.

O que as pessoas cantam? De tudo, da bossa nova ao romântico, de Roberto Carlos a Noel Rosa. Nesse repertório diversificado surge em filigrana toda diversidade desse continente a que chamamos música popular brasileira. O brasileiro é um povo musical, que convive com a música o tempo todo, ouve, repete, cantarola. Com os amigos no bar ou sozinho, em casa, debaixo do chuveiro. Canta enquanto prepara uma refeição, passa roupa ou lava a louça. A música está presente do dia a dia. É amiga, amante, consolo, muleta ou fonte de catarse. É ponto de referência dos grandes momentos de uma vida.

Em geral, lembra momentos da vida amorosa. A música de dor de cotovelo expressa o momento em que pensamos que o mundo veio abaixo por um amor desmanchado. Lembramos de uma pessoa que partiu ou que morreu, e cuja memória ficou como que corporificada por aquela música. Cantamos para trazer de volta essa presença que já não é mais física e reside apenas na memória do afeto. “As mulheres evocam essa memória afetiva com muito mais força que os homens”, diz Coutinho. No entanto, há o caso do rapaz que se lembra da mãe e de uma determinada canção que ela gostava, e tenderíamos a chamar de brega, mas que leva o personagem às lágrimas.

Há mesmo muita emoção ao longo dessas Canções de Coutinho. A canção funciona como uma espécie de nó em torno do qual os afetos se cristalizam. São metáforas de significados múltiplos, pontos vivos na memória afetiva das pessoas. As Canções nos mergulha nesse complexo afetivo-memorialístico condensado às vezes numa única música. Todos nós, independente de sexo, classe social ou cultura, temos uma história musical e uma trilha sonora da nossa existência. “Para compor ou ouvir música não é preciso sequer ser alfabetizado”, lembra Coutinho. “É algo absolutamente democrático”.

Não por acaso um filme como este é feito no Brasil. Avesso a considerações de ordem geral, Coutinho admite que “a dinâmica cultural do Brasil se expressa mais que tudo através da música. Isto sim é extraordinário”. Como é extraordinário que alguém tenha tido a ideia de fazer um filme sobre isso. Em meio a tantos documentários musicais, este usa a música como meio para alcançar a subjetividade das pessoas. Elas falam, como nunca, através das trilhas sonoras de suas vidas.

(Caderno 2)

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