Aruanda 2019: ‘Pacificado’ ou a tragédia social brasileira
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Aruanda 2019: ‘Pacificado’ ou a tragédia social brasileira

Luiz Zanin Oricchio

04 de dezembro de 2019 | 14h57

JOÃO PESSOA – Numa sessão movimentada, Flávio Bauraqui cantou Juízo Final, de Nelson Cavaquinho, mestre Vladimir Carvalho apresentou seu filme novo, sobre o dirigente comunista Giocondo Dias, e o último concorrente, Pacificado, foi mostrado ao público. Houve também os curtas Costureiras, A Ética das Hienas e O Grande Amor de um Lobo. Ufa! 

O canto de Bauraqui, grande ator homenageado, resume as aspirações expressas ao longo do festival: “O sol há de brilhar mais uma vez/A luz há de chegar aos corações/Do mal, será queimada a semente/O amor será eterno novamente”. O gênio de Nelson Cavaquinho diz tudo que precisamos ouvir. Vivemos tempos de trevas, mas elas um dia chegarão ao fim. Tomara que seja logo. E que tenhamos energia para resistir até lá. 

De resistência tratou Giocondo Dias – Ilustre Clandestino, filme em reverência ao dirigente comunista (1913-1987). O título se justifica: segundo um dos depoentes, Giocondo viveu mais de um terço da sua vida na clandestinidade. Ou no exílio. 

Trata-se basicamente de um filme de depoimentos, o que se justifica em razão da (compreensível) escassez de imagens do personagem. Alguns desses depoimentos, de antigos companheiros e amigos, reconstituem passagens da vida de Giocondo, como a fuga para Argentina quando perseguido pela ditadura.

Há uma linha fina, que percorre o documentário, e se refere à posição do PCB, contrário à luta armada. Foi uma discussão longa e talvez fratricida entre a esquerda brasileira: resistir à ditadura com armas na mão ou pela via democrática? Giocondo Dias foi partidário ferrenho desta segunda opção, endossada por Vladimir. Mas várias foram as dissidências, dentro mesmo do Partidão – a mais notória, a de Carlos Marighella, que saiu para fundar a ALN (Aliança Libertadora Nacional) e morreu assassinado em 1969. Outra, a de Jacó Gorender, que lutou pelo PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucionário) e é autor do livro fundamental Combate nas Trevas, sobre a luta armada no país. 

Perguntei a Vladimir sobre uma frase de Gorender. De acordo com ele, a esquerda brasileira pegou em armas quando não tinha condições de fazê-lo – em 1935 e em 1968 em diante – e não quando deveria, em 1964, quando poderia ter resistido ao golpe que conduziu o país à sua longa ditadura de 21 anos. 

Vladimir preferiu não responder, mas exaltou-se quando alguém questionou a presença, em seu filme, de figuras como Aloysio Nunes Ferreira (do PSDB) e Roberto Freire, que criou o PPS em substituição ao Partido Comunista. 

A exaltação fez bem ao cineasta de 84 anos, que proferiu um belo discurso contra o atual estado de coisas e citou o espírito democrático de Giocondo Dias em contraste com um presidente que deseja fundar um partido com número de calibre de revólver (38) e apresenta ao público um logotipo formado por balas de fuzil. “A essas ameaças de guerra devemos responder pela paz”, disse Vladimir, fortemente aplaudido.  

Quanto a Pacificado, dirigido por Paxton Winters e ambientado no Morro dos Prazeres, no Rio de Janeiro, já foi chamado de “Poderoso Chefão” carioca. Como quase sempre, esse tipo de comparação contém algo de verdadeiro e alguma simplificação. De fato, Jaca (Kabengele Bukassa) é o personagem que volta para a sua comunidade depois de cumprir 14 anos de cadeia. Encontra o morro chefiado por seu sucessor (José Loreto) e tenta apenas refazer a vida e viver sossegado. Reencontra-se com a ex-mulher (Débora Nascimento) e a filha (Cassia Nascimento). 

Paxton é norte-americano mas Pacificado não tem nada de filme de gringo. Mora há nove anos no Brasil e, mais especificamente, no Morro dos Prazeres. 

Ambienta sua história no encerramento das Olimpíadas de 2016, véspera da desocupação dos morros e favelas pela polícia pacificadora. Como tudo no Brasil, essa também foi uma medida cosmética, destinada a proteger os turistas da população tida como perigosa. Portanto, quando Jaca é solto, reencontra uma situação prestes a se reacomodar em sua comunidade. 

As tensões sociais não são maquiadas e nem mesmo as familiares. Débora Nascimento interpreta Andréa, uma mulher jovem mas com sérios problemas com drogas. Jaca tem dúvidas sobre a paternidade de Tati (Cassia Gil) e recebe seguidos pedidos para reassumir a posição de chefe do morro, pois ninguém aguenta a truculência de Nelson (José Loreto). Uma figura da estabilidade é a avó, vivida por Léa Garcia. O contrário é seu neto, Dudu (Raphael Logan), irmão de Jaca, atormentado pela depressão. 

Filmado de maneira enérgica, com muita câmera na mão, Pacificado escapa ao clichê de “favela movie” e se coloca como mais um testemunho da tragédia social brasileira. Evita tanto a catarse como a redenção, propondo um desfecho inquieto. O filme venceu o importante Festival de San Sebastián, na Espanha.   

Esta noite serão conhecidos os vencedores do 14º Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro. 

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