Aruanda 2019: Em ‘Desvio’ e ‘Jackson’, a força do cinema paraibano
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Aruanda 2019: Em ‘Desvio’ e ‘Jackson’, a força do cinema paraibano

Luiz Zanin Oricchio

02 de dezembro de 2019 | 10h53

Daniel Porpino, como Pedro, em ‘Desvio’

 

JOÃO PESSOA – Virando a chave, saio do Festival de Brasília e mergulho no Festival Aruanda do Audiovisual, em João Pessoa na Paraíba. 

Por que pulei de um para outro, sem tempo sequer de passar em casa? Este ano, por questões de $$$, os festivais de cinema mudaram datas e se encavalaram no segundo semestre. Como será no ano que vem, caso a perseguição ao setor se aprofunde? É o que todos temem, embora estejam se preparando para a luta. Veremos. 

Feito esse preâmbulo, coloco aqui minhas primeiras impressões do Aruanda 2019. Quem me acompanha, seja no espaço virtual, seja nas edições impressas do Caderno 2, sabe que, ano passado, daqui mesmo do Aruanda, escrevi um artigo chamado “a primavera do cinema paraibano”. Foi motivado pelo espanto de ver na tela um número considerável de filmes, produzidos no estado. Filmes ousados, bem pensados e bem construídos. 

Pois bem, essa impressão corre o risco de se renovar este ano – talvez com menos intensidade, mas mesmo assim, ainda marcante. Em todo caso,mal chegado ao festival, já posso dizer que vi dois longas-metragens paraibanos muito bons. 

O primeiro é o documentário Jackson – na Batida do Pandeiro, de Marcus Vilar e Cacá Teixeira. O outro é a ficção Desvio, de Artur Lins. 

Jackson do Pandeiro: inventor de caminhos para a música

Jackson é um documentário de feitio clássico, que resgata uma das figuras fundamentais da música popular brasileira. Usa depoimentos, inclusive do próprio artista, muita música e uma montagem engenhosa para mostrar ao público que Jackson foi muito, muito mais que uma figura engraçada no palco, sobretudo quando visto com sua companheira Almira. 

Com seu senso rítmico, sua fusão entre baião e samba, suas composições inspiradas (como o clássico Chiclete com Banana), Jackson do Pandeiro (1919-1982) abriu caminhos para a música do país. O documentário dá perfeitamente conta de mostrar ao público essa importância do artista, sem apelos retóricos. Apenas mostra sua arte, explicitada por gente que entende do bordado, como Gilberto Gil e Caetano Veloso, entre outros. Bom de ver e ouvir. 

Desvio, de Arthur Lins, é de todo surpreendente. Nunca sabemos de fato com o que ou quem estamos lidando, o que turbina a tensão interna da obra. As primeira cenas são do interior de uma penitenciária. Os presos se comprimem nas grades. As luzes se apagam na hora de dormir. Como pegar no sono naquela promiscuidade? Como sonhar? Pedro (Daniel Porpino) cumpre pena e é beneficiado por uma saída temporária para visitar a família, em Patos, no interior da Paraíba. Nada sabemos do personagem e vamos aprendendo alguma coisa sobre ele quando reencontra a mãe, parentes, Pâmela (Annie Chrissel), sua prima adolescente, os amigos de juventude. Uma história contada pelo avesso, em registro cool, muito bem filmada.

Logo notamos que Pedro vê em Pâmela o reflexo de sua própria mocidade rebelde, ambientada na cena punk da cidade. Há uma pulsão jovem que atravessa o filme, tensa, cheia de energia. Mas, ao mesmo tempo desencantada ao ver no que deram os sonhos juvenis – no amigo que agora trabalha na empresa do pai, em outro que serve sanduíches numa lanchonete. Pedro vê os sinais de envelhecimento em si mesmo, em contraponto com a prima Pâmela, que é toda energia e desejo de descobrir o mundo, viajar, sair dali, conhecer outras pessoas. 

A melancolia é interna ao filme, como a descobrir que o sistema (o capitalismo) é esse voraz devorador de sonhos, esse ser que nos forma e deforma, que a tudo digere e transforma em mercadoria, mesmo os contestadores. Qual a saída? Saída não há, mas talvez a passagem ao ato, que ilustra a famosa frase de Lênin: “o que é roubar um banco perto de fundar um banco?”. 

Em termos de comunicação com o público, entendo que a ambiguidade do personagem, o mistério em torno de si seja um fator que atrai a atenção. Assim como a tristeza expressa no rosto do personagem, quebrada apenas por sua raiva. A ambivalência se estende a uma sequência que, vista em continuidade cronológica, ou como flashback, determina dois sentidos diferentes para o filme – e para a “moral” da história. Muito bom. 

 

    

 

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