Aruanda 2019: Cinema para pensar o Brasil
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Aruanda 2019: Cinema para pensar o Brasil

Luiz Zanin Oricchio

03 de dezembro de 2019 | 15h15

 

JOÃO PESSOA – O programa de ontem foi um estímulo para a reflexão política e histórica do país. A começar pelos curtas Um Café e Quatro Segundos (SP), de Cristiano Requião, e De Longe Ninguém Vê o Presidente (RJ), de Rená Tardin, seguindo pelos longas Soldados da Borracha (CE), de Wolney Oliveira, e Partida (SP), de Caco Ciocler.

Um Café e Quatro Segundos mostra a reunião de dois egressos dos tempos da ditadura militar (1964-1985). Esses hoje veteranos eram torturadores a serviço dos órgãos repressivos. Um parece arrependido dos atos criminosos que cometeu. O outro é convicto de que tudo se justificou em nome do combate ao comunismo. O filme traz um desfecho surpreendente e põe a lente sobre as questionáveis “razões de Estado” a justificar crimes do governo autoritário. É uma lição para hoje: quando não existem freios e contrapesos, o poder se torna absoluto. Poderes absolutos não admitem contestação e tornam-se criminosos. 

Já tivemos oportunidade de comentar antes Soldados da Borracha. Basta lembrar que a expressão designa os trabalhadores engajados no esforço de guerra para derrotar o nazifascismo. Cerca de 60 mil pessoas foram recrutadas, no Brasil todo mas em especial no Nordeste, para extrair a seiva das seringueiras e vender o látex para os Estados Unidos. A borracha era insumo fundamental para o equipamento bélico. Dos 60 mil soldados da borracha, cerca de 30 mil morreram só no primeiro ano, vítimas de má alimentação, doenças, falta de assistência médica, alojamento e equipamento inadequados, etc. São heróis anônimos, jamais reconhecidos como tal pelo poder público brasileiro. Ilustram – à perfeição – a maneira como as elites econômicas e o próprio Estado tratam as classes trabalhadores no Brasil. Como carne de canhão, carvão a ser queimado, mão de obra mal remunerada e facilmente descartável. Faz parte da tradição hierárquica de uma sociedade forjada em regime escravocrata. 

Um salto no tempo nos coloca direto na atualidade, no dia da prisão de Luis Inácio Lula da Silva em São Bernardo, em De Longe Ninguém Vê o Presidente. Como se lembra, Lula custou a entregar-se à Polícia Federal. E, antes disso, pronunciou o famoso discurso em que se dizia “não mais uma pessoa, mas uma ideia”. Ideia que não pode ser aprisionada ou morta e que continuaria em seus seguidores quando ele se fosse. 

No filme, o contraponto ao discurso épico é a filmagem do interior de uma  fábrica de veículos em São Bernardo – a Mercedes Benz – quase totalmente automatizada e pouco dependente da mão de obra. Os veículos são montados por robôs, sob vigilância de poucos operários, num ambiente higiênico e quase silencioso. Essas imagens contemporâneas são entremeadas por outras, quando o jovem Lula, então presidente do Sindicato dos Metalúrgicos,  comandava as históricas greves no final dos anos 1970, começo dos 1980, nas gigantescas assembleias no Estádio de Vila Euclides. Hoje, o estádio é filmado completamente vazio. 

O filme não procura desconstruir a figura de Lula, mas identificar as mudanças de estrutura do mundo do trabalho, que podem provocar o desencaixe entre o discurso sindical e a realidade do novo mundo operário, esvaziado de sua cultura e da força que teve outrora. Não existe narração em off ou depoimentos de qualquer tipo a induzir o espectador. Apenas o discurso do líder, pouco antes de ser preso, e as imagens. Considero este um filme de grande importância para a reflexão sobre as consequências políticas dessa mudança estrutural no mundo do trabalho. 

Por fim, chegamos a Partida, direção de Caco Ciocler, filme feito no ambiente de perplexidade pela eleição de Bolsonaro. O projeto parece até um tanto delirante. Várias pessoas embarcam num ônibus e viajam para o Uruguai, simplesmente para levar um abraço de fim de ano a um dos últimos ícones da esquerda latino-americana, o ex-presidente do Uruguai, José Mujica.

No trajeto, uma atriz e militante (Georgette Fadel) discute política com um antagonista (Léo Steinbruch). Ela é de esquerda, mais à esquerda que a social-democracia que detecta no PT e no projeto de Lula. Ele é um provável eleitor de Bolsonaro, que encarna os clichês da classe média que deram sustentáculo à campanha de extrema-direita: o combate à corrupção, o cansaço com o governo de esquerda, a incompetência do governo Dilma na área econômica, etc. 

Outros ocupantes do ônibus intervêm. E mesmo o motorista, o único negro no pedaço. Quando Georgette pergunta a ele o que está achando daquilo que se passa em seu ônibus, sua resposta é surpreendente. Ele não é um mero motorista. É também dono de uma frota de 15 ônibus. Não concorda com uma só ideia de esquerda que ouviu ali. Provavelmente criou sua frota com linhas de financiamento subsidiadas nos governos petistas. Mas se perguntarem a quem deve a prosperidade, certamente dirá que tudo é fruto do seu esforço pessoal, e da ajuda de Deus, claro. 

Todo esse esforço contraditório de Partida resulta numa epifania final – sobre a qual mantenho silêncio para não estragar o prazer de quem ainda não viu o filme.

Abaixo você vê a relação dos filmes em competição nas várias mostras do Aruanda 2019.    

MOSTRA COMPETITIVA NACIONAL | LONGAS-METRAGENS

Indianara, de Aude Chevalier-Beaumel e Marcelo Barbosa (RJ)

Barretão, de Marcelo Santiago (RJ)

Desvio, de Arthur Lins (PB)

Partida, de Caco Ciocler (SP)

Pacificado, de Paxton Winters (Brasil/EUA)

MOSTRA SOB O CÉU NORDESTINO

Currais, de David Aguiar e Sabina Colares (CE)

Jackson – Na batida do Pandeiro, de Marcus Vilar e Cacá Teixeira (PB)

O que os olhos não veem, de Vania Perazzo (PB)

Giocondo Dias, Ilustre Clandestino, de Vladimir Carvalho (DF)

Frei Damião, o Santo do Nordeste, de Debby Brennand (PE)

Soldados da Borracha, de Wolney Oliveira (CE)

MOSTRA COMPETITIVA NACIONAL | CURTAS-METRAGENS

Nadir, de Fábio Rogério (SE)

Apenas o Que Você Precisa Saber Sobre Mim, de Maria Augusta V. Nunes (SC)

UM, de Daniel Kfouri e João Castellano (SP)

Travelling Adiante, de Lucio Branco (RJ)

No Oco do Tempo, de Antonio Fargoni (PB)

Nervo, de Pedro Jorge e Sabrina Maróstica (SP)

Nuvem Negra, de Flávio Andrade (PE)

Balão Azul, de Alice Gomes (RJ)

Quitéria, de Tiago A. Neves (PB)

De Longe, Ninguém Vê o Presidente, de Rená Tardin (RJ)

Um Café e Quatro Segundos, de Cristiano Requião (SP)

Brasil, Cuba, de Bertrand Lira e Arturo de la Garza (PB)

Gravidade, de Amir Admoni (SP)

 

MOSTRA COMPETITIVA | CURTAS-METRAGENS PARAIBANOS

Seiva, de Ramon Batista (Nazarezinho)

Bolha, de Odécio Antônio e Taciano Valério (João Pessoa)

Faixa de Gaza, de Lúcio César Fernandes (João Pessoa)

DNA-M Deus não acredita em máquinas, de Ely Marques (João Pessoa)

Fim, de Anna Diniz (João Pessoa)

Costureiras, de Mailsa Passos, Rita Ribes e Virgínia de O. Silva (João Pessoa, Coremas, São João do Cariri e Rio de Janeiro)

Quitéria, de Tiago A. Neves (Campina Grande)

Brasil, Cuba, de Bertrand Lira e Arturo de la Garza (João Pessoa)

No Oco do Tempo, de Antonio Fargoni (Cabeceiras)

 

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