Aruanda 2018: Repete-se a comoção com A Torre das Donzelas
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Aruanda 2018: Repete-se a comoção com A Torre das Donzelas

Filme que evoca a resistência à ditadura ganha cinco minutos de aplausos em pé e gritos de Lula Livre do público paraibano

Luiz Zanin Oricchio

08 Dezembro 2018 | 17h40

 

Antes de mostrar seu novo filme, dedicado ao sambista e comediante Mussum, Suzanna Lira apresentou, fora do concurso, seu Torre das Donzelas, que evoca o período da ditadura militar (1964-1985). O filme provocou no Fest Aruanda a mesma emoção que havia despertado em sua apresentação em setembro no Festival de Brasília – foram mais de cinco minutos de aplausos em pé, de uma plateia comovida “pero lúcida” – como preconizava o cineasta argentino Fernando Birri.

O filme evoca as memórias das ex-presas políticas que ficaram detidas na ala feminina do Presídio Tiradentes, na chamada Torre das Donzelas, durante os anos mais sombrios do regime do qual muitos imbecis têm saudades. É muito emocionante ver o que têm a dizer essas mulheres valentes, hoje maduras, do tempo em que militaram contra a ditadura, foram presas e torturadas por aquele regime odioso. E, sobretudo, como desenvolveram estratégias de sobrevivência e não perderam jamais a alegria ou a esperança.

São, e digo isso sem qualquer babaquice, uma lição de vida para todos nós, que nos lamentamos e desanimamos diante de qualquer contrariedade. A vida pede é luta e coragem. Ainda mais nesta quadra política.

Enfim, não quero repetir o que já escrevi sobre este filme notável. Para quem se interessar, copio abaixo a matéria que escrevi durante a cobertura do Festival de Brasília. Acrescento apenas que, em João Pessoa, após os longos aplausos, o cinema entoou em coro o grito de #Lula Livre, contra a mais gritante injustiça que se comete hoje no país.

BRASÍLIA

Acompanho o festival sem interrupção desde 1991 e poucas vezes vi um filme ser tão ovacionado e aplaudido de pé por tantos minutos como aconteceu com Torre das Donzelas, de Suzanna Lira. Foi uma celebração que, dado o teor da obra, também ganhou corpo de manifestação política, sobretudo em apoio à libertação de Lula, visto como preso político pela maior parte dos manifestantes.

Torre das Donzelas refaz o ambiente da ala feminina do antigo Presídio Tiradentes, no tempo da ditadura. É um trabalho de muita sutileza – e muita emoção. Há os depoimentos de cerca 30 mulheres que lá estiveram encarceradas pelo “crime” de lutar contra a ditadura. Entre elas, a ex-presidente Dilma Rousseff, cuja fala é de uma lucidez e humor exemplares. Quem ainda cai no engodo midiático de achar que a Dilma é verbalmente desarticulada, deve ver o documentário para, talvez, rever seus conceitos. (Embora preconceitos sejam a coisa mais arraigada deste mundo).

Torre das Donzelas – primeiro concorrente da competição de longas-metragens – toma um viés bastante original entre as obras cinematográficas que se debruçam sobre a experiência da ditadura. Constrói, a partir do depoimentos, uma curva dramática que reproduz as diversas fases da experiência por que passaram essas mulheres – a militância, a prisão, o encarceramento, a tortura, a resistência, as estratégias de sobrevivência no cárcere, a libertação. E esta se dá no interior mesmo da cadeia, quando elas constroem, atrás das grades, um espaço de convivência e liberdade.

O filme usa ainda o expediente de recriar o ambiente da prisão (o presídio foi demolido ainda nos anos 1970), uma espécie de espaço virtual no qual as antigas militantes se encontram para falar para as câmeras. Outras (como Dilma) são entrevistadas individualmente. Há ainda uma sutil encenação com atrizes jovens nesse ambiente recriado. “Para mostrar o quanto elas eram jovens na época em estiveram presas”, diz a diretora. As imagens ficcionais, intercaladas às falas, dão essa sugestão de juventude, de pulsão juvenil, que potencializa o exercício da memória das mulheres ao relembrar seu passado.

É tudo muito tocante e também um exemplo de vida, para valer, sem essa de autoajuda. Elas sugerem que mesmo as grandes dificuldades precisam ser enfrentadas com alegria. Como diz a diretora do filme: “Querem nos fazer cair em depressão com o atual estado de coisas no Brasil, mas não podemos nos render, e enfrentar tudo com alegria, como estas mulheres fizeram em condições muitíssimo piores”. Não há dúvida. E isso lembra a frase famosa de Oswald de Andrade: “A alegria é a prova dos noves”.

Enfim, a noite foi uma apoteose estética e política e o debate, no dia seguinte, não ficou atrás, com a presença de várias dessas “donzelas”, refeitas dos traumas do passado e realizadas em suas vidas após a libertação. Todas conservam as ideias de juventude e não abdicam da ideia de um mundo melhor. Por que desistiriam, depois de sobreviver a tudo aquilo?