Aruanda 2018: Para lembrar a ginga e a alegria de Mussum
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Aruanda 2018: Para lembrar a ginga e a alegria de Mussum

Longa de Suzanna Lira, Mussum, um Filme do Cacildis, relembra a trajetória do saudoso sambista e cômico de Os Trapalhões

Luiz Zanin Oricchio

08 Dezembro 2018 | 12h20

João Pessoa/PB

Primeiro longa da competição nacional, Mussum, um Filme do Cacildis, de Suzanna Lira, foi muito bem recebido pelo público. Entende-se. Ao refazer, de forma muito bem humorada, a trajetória do sambista e comediante Mussum, a diretora atingiu em cheio a memória afetiva do público.

Mussum, aliás Antônio Carlos Bernardes Gomes (1941-1994), era conhecido como Carlinhos da Mangueira ou Carlinhos do Reco-reco. Sambista de recursos, inventivo e eclético, era também famoso por sua alegria de viver, seu espírito piadista, seu invencível alto astral. Foi essa característica que o levou a Renato Aragão e à trupe Os Trapalhões, ícone cômica de certa época (hoje, sob a égide do politicamente correto, seria inviável).

O lado musical de Mussum é o primeiro que aparece, pois cronologicamente assim se deu. De uma dissidência de Os 7 Modernos do Samba, nasceu o conjunto Os Originais do Samba, que acompanharam Elis Regina e Baden Powell em Lapinha, a vencedora da Bienal do Samba, em 1968.

Com repertório de sucessos como Cadê Tereza, Do Lado Direito da Rua Direita, Tragédia no Fundo do Mar, os Originais do Samba marcaram época. Tocavam dia e noite, no rádio e na TV e em excursões pelo Brasil e pelo mundo. Assim, Mussum já era famoso, mesmo antes de entrar para a carreira cômica que, dado seu jeito de ser, era seu caminho natural.

O acerto de Suzanna Lira é contar essa vida fora dos padrões de maneira também pouco convencional. Usando grafismos, uma trilha sonora cheia de ginga de Pretinho da Serrinha e a narrativa irônica e terna de Lázaro Ramos, o filme escapa às regras do doc musical clássico. Criando associações surpreendentes, usando de forma irônica uma narrativa em aparência objetiva, a forma é tributária da de Ilha das Flores, curta seminal do diretor gaúcho Jorge Furtado. Seria melhor creditar ou agradecer o autor de Ilha das Flores por essa citação contínua.

De qualquer forma, é o samba que começa e termina essa trajetória rápida e brilhante como a de um meteoro descrita em Um Filme do Cacildis. No início, com o incrível samba-rock Tenha Fé, pois Amanhã um Dia Lindo vai Nascer, de Jorge Benjor  (1971). E, no fim, com Vou me Pirulitar (1969), do mesmo Benjor. As duas gravações foram tiradas do programa Ensaio, da TV Cultura, exibido em 1972.

A ausência de citação de Jorge Furtado, ou melhor, “Furtadis”, é um pecado venial deste filme alegre, para cima, e muito necessário nesta época em que as trevas vão se fechando sobre o país. Nos lembra que, mesmo em tempos históricos depressivos, não se pode deixar a alegria morrer.

Salve, Mussum!