Aruanda 2018: Clementina, Adoniran, o Brasil como poderia ser
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Aruanda 2018: Clementina, Adoniran, o Brasil como poderia ser

Cinebiografias de artistas como Adoniran Barbosa e Clementina de Jesus evocam o que o País tem de melhor

Luiz Zanin Oricchio

11 de dezembro de 2018 | 11h18

João Pessoa/PB

Clementina de Jesus, Adoniran Barbosa…o Brasil como poderia (e deveria ser): esses personagens têm batido na tela do Aruanda, conforme a proposta original – filmes de (ou sobre) músicas e músicos. A música é o que temos de melhor. O que temos de pior, eu nem preciso lembrar, não é?

Em Clementina, a diretora Ana Rieper relembra a trajetória da extraordinária intérprete carioca, revelada quando tinha já 63 anos. Tudo, em Clementina, é comovente. Da vida humilde à alegria simples e a espirituosidade. Das raízes ancestrais à tardia descoberta brasileira de que havia uma estrela vivendo entre nós.

Hermínio Belo de Carvalho diz no filme que detesta quando dizem ter sido ele o descobridor de Clementina. “Ela estava lá; bastava ter prestado atenção”. Não é tão simples assim. Por que, se existe uma característica triste do Brasil, é que não prestamos quase nunca atenção ao que há de importante entre nós. Quantos talentos iguais ao de Clementina podem ter vivido e morrido no anonimato? Jamais saberemos. Nunca nos dedicamos à nossa maior riqueza, que mora na gente do nosso povo.

De qualquer forma, mesmo que tardiamente, Clementina de Jesus escapou à essa sina e se tornou uma grande senhora do canto brasileiro. Aquele canto essencial, que vinha da África e inseminou a nossa música, tornando-a uma das maiores do mundo, junto com a cubana e a norte-americana. PS: em conversa recente com o grande pianista cubano Chucho Valdés, ele me disse que nós, brasileiros, com nossa diversidade rítmica, melódica e harmônica, tínhamos o maior música do mundo – e não nos dávamos conta. Para variar.

Clementina, a genial cantora, é uma espécie de elo perdido entre a África e o Brasil, conforme definiu o próprio Hermínio.

 

Em Adoniran – Meu Nome é João Rubinato, o diretor Pedro Serrano aborda outro personagem, em outra vertente da música brasileira. Rubinato era filho de imigrantes italianos pobres (uma quase redundância, pois a imensa maioria emigra por pobreza). Exerceu mil atividades durante a vida, de entregador de marmitas a cômico, ator, compositor, e, por fim, ícone maior da paulistanidade.

Adoniran soube, como nenhum outro, enxergar a poesia dura escondida nos cantos daquela metrópole cinza e indiferente. Conforme conta o empresário Pelão, ele, já famoso,  gostava de entrar pelos cortiços do Bixiga, seu bairro de eleição, “para ver as pessoas”. Falar com elas, ver como estavam, como tocavam suas vidas difíceis. Ou seja, reencontrar o material de inspiração de sambas tristes como Iracema, Pode Apagar o Fogo, Mané, Saudosa Maloca e outros tantos.

Um depoimento pungente é o do artista gráfico Elifas Andreato, que desenhou a capa de um disco comemorativo dos 70 anos de Adoniran Barbosa – quando ele já não gozava da fama anterior e enfrentava dificuldades. Elifas desenhou o rosto de Adoniran como um palhaço com lágrimas nos olhos. Um executivo da gravadora disse ao artista que talvez Adoniran não entendesse a homenagem. E Elifas desenhou uma capa alternativa, mais convencional.

Tempos depois, disco pronto, recebe um telefonema do próprio Adoniran o repreendendo: “Elifas, eu sou mesmo aquele palhaço triste da primeira capa e não o alemão que você desenhou depois”.

Elifas se penitencia: “Como eu pude pensar que um artista do tamanho do Adoniran não entenderia meu desenho? Como renunciei a ele apenas porque um executivo teve receio de uma reação negativa?”

O filme é um mergulho não apenas na arte e no personagem de Adoniran, mas nos meandros dessa cidade triste em que São Paulo se tornou. Desfaz por completo o mito de que Adoniran era apenas engraçado (Elis Regina, com sua lucidez, já havia percebido isso).

Sob seu humor sardônico, a fala “errada” e italianada, o aparente descaso com temas fundamentais, havia toda uma preocupação com os desvalidos deste mundo, com os “maloqueiros” que não tinham onde morar. E que continuam por aí, abandonados e hostilizados pela cidade indiferente.

Foi para eles a poesia de Adoniran, que só ganhou respeitabilidade entre intelectuais quando, a pedido de Pelão, o nosso maior crítico literário, Antonio Candido de Melo e Souza, escreveu um consagrador texto de contracapa para um novo LP de Adoniran Barbosa. Um tanto esquecido, Adoniran só voltou às manchetes ao morrer, deixando apenas uma casinha para a viúva. Morto, tornou-se um ícone, “a cara de São Paulo”, segundo o clichê jornalístico evocado a cada aniversário da metrópole. Ou dele, Adoniran Barbosa, nascido João Rubinato, em Valinhos.  

Assim é o Brasil. Só valorizamos o que perdemos. Bem, hoje em dia talvez nem isso.