Aruanda 2017. Clara Nunes vive
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Aruanda 2017. Clara Nunes vive

Clara Estrela levantou a plateia do Fest Aruanda 2017, em João Pessoa. A vida e a arte da cantora é tema do documentário que abriu o festival

Luiz Zanin Oricchio

02 Dezembro 2017 | 09h31

 

João Pessoa/PB

O 12º Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro começou em grande estilo com a apresentação de Clara Estrela, documentário de Susanna Lira e Rodrigo Alzuguir em homenagem à cantora Clara Nunes.

Em feitio de oração, mas também amigo do alto astral, o filme emocionou a plateia e arrancou aplausos em cena aberta quando a cantora se apresentava acompanhada pela sanfona do genial paraibano Sivuca, no forró Feira de Mangaio.

Em debate realizado no dia seguinte à apresentação, a dupla de diretores falou de sua opção em realizar um filme sem entrevistas de especialistas ou outros depoimentos. “É uma Clara em primeira pessoa do singular”, disse Alzuguir. A única exceção é uma pequena declaração em off de Vinicius de Morais dando força a uma então ascendente Clara Nunes.

Para tanto, os realizadores reuniram material de arquivo com entrevistas de Clara Nunes e também suas apresentações. A este material audiovisual acrescentaram trechos de entrevistas dadas pela cantora à mídia impressa. Essa “fala” indireta de Clara é interpretada pela voz da atriz Dira Paes.

No entanto, o projeto inicial não era esse. Havia material gravado com muita gente falando de Clara. Mas a dupla de cineastas optou por um caminho diferente do tradicional cinema de entrevistas que assolou e ainda debilita o documentário brasileiro contemporâneo.O famoso “talking heads”, as cabeças falantes.

A aposta mostrou-se acertada. É muito emocionante ver na tela grande a cantora falando de si mesma e, sobretudo, praticando seu ofício com a garra e intensidade que a caracterizaram em sua breve vida. Clara morreu aos 40 anos, em consequência dos efeitos de uma cirurgia banal.

Clara Estrela é um perfil, subjetivo portanto. A cantora fala de si mesma e detém a interpretação sobre sua própria vida, o que nem sempre bate com os dados factuais. “Por exemplo, ela fala o tempo todo da influência do seu pai que, para nosso espanto, morreu quando ela tinha apenas dois anos de idade”, diz Susanna.

Clara constrói sua história imaginária, o seu “romance familiar”, na expressão de Freud. E foi uma vida e tanto, propícia a fabulações. Nascida em família pobre em Paraopeba, interior de Minas, Clara ralou muito para chegar onde chegou. Bem dotada pela voz marcante, ao lapidar sua presença cênica, chegou ao ápice. “Devo muito a Bibi Ferreira, a maior diretora que conheci”, reconhece a cantora em uma entrevista.

No mais, houve o cuidado de incluir bastante música no filme, o que é fundamental quando se trata de personagem como Clara Nunes, dona de repertório de sucessos como Conto de Areia, O Mar Serenou e Morena de Angola.

Clara era também mulher política, que, em meio à ditadura, pronunciou-se contra o regime militar. Faz falta à cena cultural contemporânea, marcada pela mediocridade. O documentário a traz de volta.

 

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