Aruanda 2017. Callado, Açúcar e O Nó do Diabo
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Aruanda 2017. Callado, Açúcar e O Nó do Diabo

Três longas se destacaram na competição ao longo do fim de semana, o documentário Callado e as ficções Açúcar e O Nó do Diabo

Luiz Zanin Oricchio

04 Dezembro 2017 | 13h29

 

João Pessoa/PB

Em todo festival é a mesma coisa – o acúmulo de atividades e filmes obriga o blog ao recurso da miscelânea para não perder o pé das coisas. Então, vamos lá a um resumão do que aconteceu no fim de semana.

Comecemos pelos três filmes apresentados na mostra competitiva: Callado, Açúcar e O Nó do Diabo.

Callado, de Emilia Silveira, é desses desafios terríveis que se apresentam ao documentarista: resumir vidas muito ricas e intensas no tempo de um filme palatável. Há méritos e riscos nesse procedimento cirúrgico. A síntese beneficia a concentração do espectador. Sente-se falta de outras coisas. Há quem se queixe, por exemplo, da obra dramatúrgica e das adaptações de seus livros para o cinema.

No entanto, o filme concentra-se no essencial; naquilo que foi, de fato, mais importante na trajetória do personagem: sua presença no jornalismo e na literatura do Brasil.

Callado foi uma referência na profissão jornalística. Chegou ao posto mais alto do Correio da Manhã e terminou como colunista da Folha de S. Paulo.

Homem político, opositor do regime militar, foi um dos “oito do Glória”, intelectuais que se reuniram em frente ao hotel carioca para protestar contra o ditador de plantão (não é necessário nomeá-lo).

Para resumir, Callado sonhou alto para o Brasil e pagou com a desilusão do sonho desfeito, sensação que todos sentimos hoje em dia, 20 anos depois de sua morte, e em circunstâncias distintas.

O tom do sonho naufragado, porém sonhado com intensidade, acompanha o ritmo do filme. Boas escolhas as de colocar grandes letreiros na tela no momento em que trechos dos escritos de Callado são lidos. Imagem e som reforçam o ritmo das palavras e seu poder.

Callado nos legou Quarup, que precisa ser relido de tempos em tempos, e Reflexos do Baile, que ele mesmo considerava sua obra-prima. São livros enraizados nos períodos de transe da ditadura, o começo da luta armada e, dentro desta, a particularidade do sequestro de embaixadores para troca de prisioneiros políticos.

Açúcar, de Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, de Pernambuco, investe num tema que vem se tornando recorrente no cinema brasileiro – o “legado” da escravidão como matriz dos desacertos do Brasil com a História. O Nó do Diabo, que comentarei em seguida, também tem a ver com isso.

Em Açúcar, Maeve Jinkings interpreta a herdeira de um engenho extinto e em ruínas. Ela volta à propriedade com intuito de reerguê-la e tem de conviver com uma comunidade estabelecida ao lado.

A dupla de diretores usa livremente a linguagem alegórica e também o recurso ao fantástico para representar a relação racista dos brancos em relação aos antigos empregados negros e, por fim, à escravidão. Tem momentos de intensidade e outros nem tanto. Mas é testemunha, mais uma vez, da necessidade de o país refletir sobre essa questão, ao invés de estacionar em autoimagens apaziguadoras do tipo “mestiçagem amigável” ou “racismo leve”.

Ninguém mais acredita nesses engodos e é preciso caminhar para a frente, para uma crítica, perdão pela redundância, frontal em relação à discriminação. O cinema, como arte-sintoma, tem expressado essa necessidade, de uma ou outra forma.

O longa paraibano O Nó do Diabo aborda de maneira ainda mais direta o tema da sobrevivência da escravidão nas relações sociais contemporâneas. Estruturado em episódios, vai do presente ao passado, tendo sempre por foco a relação de um senhor de engenho (Fernando Teixeira) com seus empregados ou escravos.

O filme começa no ano do golpe de 2016, com um empregado armado defendendo a casa grande em ruínas de possíveis invasões. No seguinte, situado em 1987, um casal de negros pede emprego na mesma casa grande e depara-se com hábitos e utensílios macabros do tempo da escravidão. Sempre recuando no tempo, os episódios vão cobrindo, no registro do terror, a época da escravidão oficial, das lutas dos quilombolas etc.

Bem pensado, bem filmado e interpretado o longa paraibano de Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhésus Trizubi apresenta certo desnível entre os episódios. Mas acerta no diagnóstico principal: o brasil como interminável filme de terror, como escrevi ao ver o filme pela primeira vez, no Festival de Brasília. Talvez por ser da casa, talvez pelo tema e enfoque caro aos jovens, O Nó do Diabo teve a sessão mais lotada do festival. Muita gente assistiu ao filme nas escadas do cinema, pois todas as poltronas estavam tomadas.

Há espaço para o terror brasileiro nas telas. Na vida real a gente já sabia.