Aruanda 2016. ‘Era o Hotel Cambridge’ tem a força de um manifesto
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Aruanda 2016. ‘Era o Hotel Cambridge’ tem a força de um manifesto

Luiz Zanin Oricchio

12 Dezembro 2016 | 18h01

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JOÃO PESSOA

 

Mesmo prejudicado pela avançado da hora, Era o Hotel Cambridge recebeu uma justa ovação no Fest Aruanda. O filme de Lili Caffé foi precedido por dois outros longas – O Crime da Cabra e Silêncio no Estúdio – numa dessas massacrantes sessões triplas inventadas pelo Aruanda para edição deste ano. Mesmo assim, havia um bom público remanescente, e este aplaudiu de pé o filme que tem por foco as ocupações urbanas e movimentos de sem tetos. Ouviu-se até um esquecido coro de “Fora Temer”, já meio deslocado pelos últimos acontecimentos, que testemunham um governo cada vez mais fraco.

Cambridge parece um híbrido de documentário e ficção. Mas para a diretora Lili Caffé é totalmente ficção. Em entrevista, Lili contou sobre o processo de criação, que começou com uma pesquisa sobre imigrantes e refugiados até desembocar sobre um problema comum a brasileiros e estrangeiros pobres vivendo no País – o da moradia. A diretora entrou em contato com coletivos e movimentos dos sem teto e o filme foi nascendo dessa somatória de forças. A hibridação continua na própria feitura do longa, em que interagem poucos profissionais – José Dumont e Suely Franco – e não profissionais que interpretam seus próprios papéis.

O filme tem a força de um manifesto e o entusiasmo de um épico. Repercute a questão da luta pela moradia em termos políticos e lhe dá âmbito internacional ao colocar brasileiros e estrangeiros nas mesmas condições e aspirando aos mesmos direitos. Tanto assim que um refugiado palestino e outro congolês se colocam entre as figuras centrais do filme. Quase em pé de igualdade a Carmem Silva, líder real dos sem teto, que interpreta a si mesma. O cumprimento de uma reintegração de posse, com a atuação policial retratada em toda truculência, é, não o ponto mais alto, mais o mais dramático deste filme de exceção. E sobre o qual muito ainda há de se falar. E escrever.