Aruanda 2016 discute a memória da TV brasileira
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Aruanda 2016 discute a memória da TV brasileira

Luiz Zanin Oricchio

13 Dezembro 2016 | 11h30

Maria do Rosário Caetano, João de Lima, Lima Duarte, Wills Leal e Vladimir Carvalho

Maria do Rosário Caetano, João de Lima, Lima Duarte, Wills Leal e Vladimir Carvalho

JOÃO PESSOA

A memória da TV brasileira está sendo evocada no Fest Aruanda. Primeiro, porque um dos nomes homenageados é o de Péricles Leal, criador do personagem Falcão Negro e um dos pioneiros da televisão no País. Segundo, porque um dos longas em competição é Silêncio no Estúdio, de Emilia Silveira, dedicado a Edna Savaget, ela também uma das primeiras apresentadoras de televisão do Brasil, mulher de múltiplas atividades e personalidade forte. Péricles era paraibano; Edna, carioca.

Sobre o primeiro foi apresentado o documentário Péricles Leal – o Criador Esquecido, de João de Lima e Manuel Clemente. Também em torno do seu nome, formou-se a mais animada mesa de debates do festival, com o próprio João de Lima, o ator Lima Duarte, o crítico Wills Leal e o documentarista Vladimir Carvalho. O professor e pesquisador João de Lima lembrou o homem de sete instrumentos que foi Péricles Leal. Jornalista, colunista, escritor e homem de TV. “Mas ele queria ser reconhecido como romancista, pois fazer televisão na época não era considerado algo de prestígio”. Tentou até carreira internacional. Em vão. Mas aqui foi um sucesso.

Lima Duarte divertiu a todos contando histórias da época. “Fiz três novelas do Péricles: Os Homens Querem Paz, Posto Avançado, Paz na Terra. Sempre com temática nordestina.” Diz que na antiga TV Tupi o obrigaram a participar do seriado Falcão Negro, ordem que ele cumpriu a contragosto. “Eu era o Gavião da Floresta, oponente do Falcão, e havia um duelo final entre nós. Acontece que o Falcão era interpretado em São Paulo pelo José Parisi, que tinha fama de bater de verdade para dar mais realismo às cenas. Assim, quando nos enfrentamos, eu fiz questão de morrer logo no início da briga para não levar muita porrada”, diz o ator, exuberante em seus 86 anos. A sério, Lima reconheceu: “o Péricles cunhou a teledramaturgia brasileira”.

Péricles foi mandado por Assis Chateaubriand para estudar televisão nos Estados Unidos. De lá trouxe a técnica, a forma de organização do novo veículo e, de quebra, o modelo de rádio FM com programação intercalada de anúncios, fórmula usada até hoje. Seu Falcão Negro virou HQ e foi muito popular nos anos 1950. Diretor da TV Ceará, descobriu Renato Aragão, que depois veio a ser sucesso nacional na Globo. O próprio Péricles foi para a Globo, onde escreveu uma adaptação de O Ateneu, de Raul Pompeia, chamada Memórias de Amor. Os Homens Querem Paz, a que Lima Duarte se refere, foi foi um Caso Especial dirigido por Gracindo Junior e Herval Rossano.

Edna Savaget. Cultura para o público

Edna Savaget. Cultura para o público

Silêncio no Estúdio fala da vida agitada e criativa de Edna Savaget, talvez mais conhecida do público carioca. Afinal, foi na TV Tupi do Rio de Janeiro que ela se tornou pioneira dos programas vespertinos dirigidos ao público feminino. Múltipla e enérgica, era colunista de jornal, escritora e conviva frequente do mundo das artes, da literatura e da música do Rio. O projeto de resgate dessa personagem é da sua filha Luciana Savaget, também ela mulher de TV e escritora. Convidou a documentarista Emilia Silveira para dirigir o filme.

O longa revela-se muito interessante. Não apenas por apresentar ao público uma personalidade já um tanto esquecida (quando não totalmente desconhecida do público dos outros Estados), mas também por permitir uma imersão na maneira de fazer TV daqueles anos, muito mais precária, mais improvisada mas também mais cheia de vida e pulsante. O filme apresenta material de pesquisa interessante, garimpado nas emissoras, e se vale também dos registros feitos pelo marido de Edna, que acompanhou a carreira da mulher com paixão de arquivista.

Presença marcante no vídeo, Edna parecia ótima entrevistadora. E tinha preocupação didática, ao tentar levar ao público conhecimento e ampliar a base de informação de quem a via. Quando a TV foi mudando para o modelo popularesco atual, começou a perder espaço. Foi expelida da Globo por Boni, que empreendeu a grande reforma na emissora junto com Walter Clark. Depois trabalhou na Band, e ela própria se demitiu quando percebeu que os tempos eram outros e o tipo de programa que gostava de fazer já não tinha mais vez no mundo atual.