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Aruanda 2014. Uma boa seleção de filmes

Luiz Zanin Oricchio

17 Dezembro 2014 | 09h25

JOÃO PESSOA

Hoje à noite (quarta-feira) saem os prêmios do 9º Festival Aruanda. O que se pode dizer da mostra é que apresentou uma boa seleção de longas-metragens.

Boa e diversificada. Há desde uma ópera popular como A Luneta do Tempo, de Alceu Valença, até o hiper experimental Pingo D’Água, de Taciano Valério. Cássia é um bom documentário feito por Paulo Fontenelle sobre a cantora Cássia Eller e, em Sangue Azul, este fora de concurso, Lírio Ferreira revive seus momentos melhores de cineasta visualmente inventivo com uma história de amor a atração incestuosa, tendo a paradisíaca ilha de Fernando de Noronha como palco.

O Outro Lado do Paraíso, de André Ristum, adapta o relato memorialístico de Luiz Fernando Emediato, com a saga de um pai que deseja o melhor para a família e busca na conturbada Brasília das vésperas do golpe de 1964 seu ilusório paraíso pessoal. O filme possui qualidades e é todo bem-feito, mas ressente-se de vários problemas, como falta de ritmo e insuficiente imersão no pathos político da época.

Já O Fim e os Meios, do experiente Murilo Salles, mergulha na Brasília contemporânea, buscando jogar luz sobre a gênese da corrupção, o assunto único e obsessivo do País. Num filme escuro (do ponto de vista fotográfico) e sombrio (do ponto de vista moral), Murilo procura a complexidade das coisas, ao invés de comprazer-se nesse jogo simplista da oposição entre o Bem e o Mal, ora dominante. Se consegue um tratamento estético à altura dessa ambição, é matéria para debate. Nem sempre agradável, o filme nada tem de banal e presta-se a discussões amplas e profundas.

Ausência, de Chico Teixeira, é uma gema preciosa, que aposta no lacunar e na delicadeza ao traçar um panorama de relações humanas na cidade grande. É a história de Serginho (Matheus Fagundes), que mora com a mãe (Gilda Nomacce), abandonada pelo marido e com problemas de alcoolismo. Serginho tem no professor vivido por Irandhir Santos uma espécie de mentor. E, talvez, um modelo sexual. Tudo é diminuto, contido, implícito, o que significa máxima dimensão emocional. Justamente por não procurar impingir sentimentos ao espectador e muito menos chantageá-lo é que consegue conquistá-lo.

Campo de Jogo, de Eryk Rocha, é, possivelmente, o mais belo poema visual do futebol brasileiro. Não o futebol do grande capital, jogado por astros milionários, mas o futebol popular, da periferia, disputado com paixão e amor à camisa.

Para Sempre Teu, Caio F., de Candé Salles, é um doc sobre o escritor gaúcho Caio Fernando Abreu, morto de Aids prematuramente, e que deixou vasta obra e uma legião de leitores. Por muitos anos, Caio foi colunista do Caderno 2. Baseia-se numa série infindável de depoimentos sobre o personagem, além de cenas gravadas com ele próprio. Adota, de modo proposital, um formato convencional. Para um personagem anticonvencional.

A mostra termina hoje com a exibição, fora de concurso, de A História da Eternidade, de Camilo Cavalcante, vencedor do Festival de Paulínia. Um belo ensaio poético, com três histórias que se passam no sertão. Cinema sensorial, inspirado, como sempre.

A seleção de curtas foi mais irregular. Entre eles, o destaque fica para A Queima, de Diego Benevides, curioso documentário fake sobre uma entidade que atormenta os sertanejos roubando-lhes o fogo.

O festival teve ainda um bom nível no quesito debates, embora nem todos os realizadores tenham vindo a João Pessoa defender seus filmes. Houve também mesas-redondas sobre temas gerais do cinema brasileiro, com destaque para o encontro que discutiu o cinema pernambucano, sua aura autoral e a possibilidade de servir como parâmetro para o todo da produção nacional.

Na tentativa de obter visibilidade no congestionado calendário nacional de festivais, o Aruanda buscou trazer a João Pessoa algumas celebridades que o diferenciassem. Vieram, por exemplo, o ator Daniel de Oliveira, protagonista de Sangue Azul, e sua mulher, Sophie Charlotte. Ambos participaram do recente remake da novela O Rebu, da Globo. Também esteve aqui o popularíssimo Alceu Valença, diretor do longa que abriu a mostra, A Luneta do Tempo. Nada contra, desde que essas celebridades estejam nos filmes, como foi o caso.

Em festival que se leva a sério a celebridade é o cinema.

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