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Arthur Miller, peças e filmes

Luiz Zanin Oricchio

06 de dezembro de 2009 | 22h48

As três mais importantes peças de Arthur Miller – A Morte de um Caixeiro Viajante, As Bruxas de Salem e Panorama Visto da Ponte – ganharam versões para o cinema. São, como se poderia prever, os pontos altos da trajetória cinematográfica do autor. Mas, quando se analisa o legado de Miller aplicado ao cinema, não se pode esquecer a adaptação para a tela de um dos seus romances, Focus. E, muito menos, o roteiro que escreveu para sua mulher, Marilyn Monroe, Os Desajustados, filmado por John Huston.

Miller não dependeu do cinema para se tornar famoso. Já o era com a montagem da peça A Morte de um Caixeiro Viajante, que lhe rendeu um Pulitzer pelo texto e um Tony (o “Oscar” do teatro americano) pela montagem de Elia Kazan. Ironia porque, durante o macarthismo, Miller e Kazan estariam em lados opostos do balcão diante do Comitê de Atividades Antiamericanas. Enfim, Miller era uma personalidade, mas é claro que a extensão do que escrevia para um meio de alta divulgação como o cinema (“a” arte do século 20, dizia Lenin) só contribuiu para torná-lo ainda mais famoso, conhecido e influente.

Vista assim, pelo ângulo dos prêmios e do reconhecimento, a trajetória de Miller é um sucesso. Mas ninguém está em melhor posição do que ele para compreender as contradições e a ilusão contidas no êxito, quando cultuado como valor supremo, como nos Estados Unidos. É o tema problemático de A Morte do Caixeiro Viajante, tal como podemos ver no filme dirigido pelo alemão Volker Schloerndorff, em 1985, tendo Dustin Hoffman no papel de Willy Loman. Loman passou a vida toda acreditando no valor absoluto do dinheiro e no poder; agora está em vias de perder o emprego e ser destruído, junto com a família. Hoffman, nesta versão, é ator suficiente para dar conta de todas as nuances de um personagem que nunca é unidimensional. Loman não é um coitado nem um herói. Longe de ser uma inocente “vítima do sistema”, torna-se cúmplice deste. Sua tragédia é a de um homem, mas também de todo um modo de vida.

Em As Bruxas de Salem (Nicholas Hytner, 1996), Miller revive um episódio do século 17, quando 19 pessoas foram executadas num povoado de Massachussets, acusadas de feitiçaria. Crendices letais, intolerância religiosa? Sim, tudo isso, mas é claro que o texto faz referência direta à “caça às bruxas” do período macarthista, da qual o próprio Miller foi uma das vítimas. Do fanatismo religioso à paranoia política não há mais que um passo, e essa ligação é claramente expressa na história de Abigail (Winona Ryder), criada que se torna amante de um fazendeiro casado, John Proctor (Daniel Day-Lewis). Despedida, ela faz um “feitiço” contra a esposa de John, e o fato provoca a histeria coletiva que, instumentalizada pela Igreja, transforma-se em banho de sangue. Tudo em nome da fé e da civilização, é claro.

É curioso, mas não surpreendente, que nesses textos transformados em filmes, Miller se ocupe em desconstruir alguns pilares da preciosa auto-imagem do país – a América como a terra das oportunidades para todos e pátria da tolerância religiosa e política. Na época, foi condenado pela direita macarthista, porém glorificado como heroi intelectual. Hoje, em nosso tempo ignorante, talvez fosse apenas considerado um chato inconveniente, como alguns chegaram a tachar Noam Chomsky, quando este criticava o governo Bush.

Miller não para por aí. Em Panorama Visto da Ponte (Sidney Lumet, 1962), Eddie Carbone (Ralf Vallone) é casado, infeliz, e cobiça a sobrinha. Quando esta se apaixona por um imigrante clandestino, Carbone, por ciúmes, decide denunciá-lo. Como em As Bruxas de Salem, Panorama Visto da Ponte parte de um episódio de ordem íntima, a rivalidade amorosa, e passa para a esfera pública. Nesse movimento, desnuda a intolerância social. No caso, o alvo da crítica corrosiva de Miller é a América como refúgio democrático para os estrangeiros.

Em Focus, seu romance adaptado para o cinema por Neal Slavin (2001), outra questão polêmica é levantada: o antissemitismo durante a 2ª Guerra. William H. Macy é um executivo de meia-idade que vê uma mulher hispânica ser agredida em seu bairro. Depois, ele se recusa a perseguir o dono de uma banca de jornais, judeu, que a vizinhança quer expulsar. A simples recusa ao comportamento de matilha o torna suspeito aos olhos dos outros. Quando ele é obrigado a usar óculos, as pessoas passam a achar que tem a fisionomia “judaica”. No pano de fundo, mais uma vez, a intolerância como matriz do autoritarismo, algo que Tocqueville chamava de “tirania da maioria”. E, tanto como em Panorama Visto da Ponte, Focus é um questionamento à ideologia da América como “terra de todos”.

Em seu mais belo roteiro, escrito para Marilyn Monroe, Miller vê uma América crepuscular em Os Desajustados, de 1962. Marilyn é Roslyn, uma mulher sensível que conhece o caubói truculento vivido por Clark Gable. Ele é um farrista em fim de carreira, vive de capturar cavalos selvagens, o que ela não aceita. É o ocaso do Oeste como mitologia (mais uma) da sede de conquista, do empreendedorismo norte-americano. Huston o filma em preto e branco, pungente. Miller tentou – e conseguiu – dar a Marilyn o papel de sua vida. Gable estava doente, Marilyn bebia e se drogava. Seus personagens são comoventes. O panorama – visto dessa ponte – é de um país em frangalhos, que não sabe para onde ir. Nem sempre o poder é sinônimo de glória, como escreveu Maquiavel, em seu tempo. Era o que o dramaturgo dizia aos Estados Unidos. Nunca parou de dizer.

Miller foi grande artista e consciência crítica do seu tempo. Hoje em dia parece difícil, senão impossível, conciliar as duas qualidades.

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