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Arthur C. Clarke

Luiz Zanin Oricchio

19 de março de 2008 | 19h03

90 anos bem vividos, isso não é fato para se lamentar, mas para saudar. Quanta gente chega até lá, e lúcida ainda por cima, e deixando atrás de si uma obra marcante? Marcante, eu disse? Sem dúvida. Mas o problema é que, lendo-se os obituários de Clarke, nota-se que ele é sempre é referenciado ao filme que teve origem em seu livro mais famoso. O que seria de Clarke sem Kubrick? – esta é a pergunta que devemos nos fazer, sem preconceitos.

Li 2001 depois de ver o filme. Gostei. Mas não me pareceu grande literatura, devo confessar, com todo o respeito. Li outras coisas de Clarke, mas depois perdi o interesse. E não é porque a temática me desagradasse. Houve época em que adorava ficção científica, e isso incluía Clarke, além de Bradbury e Asimov. Acho Eu, Robô um belo livro pela exploração de hipóteses sobre a inteligência artificial.

Mas, enfim, estamos falando de Clarke e, talvez, o que mais seduzia em seu livro (e claro, no filme) era uma hipótese, digamos, metafísica para a origem e destinação da espécie. Quer dizer, Clarke partia da ciência e ia a algum ponto além dela. Um exercício de inteligência, que deve ser respeitado e apreciado. E que, além de tudo, cumpriu esse papel de inspirar descobertas da ciência “real”, como os satélites de órbitas estacionárias, por exemplo. Não é pouca coisa, embora eu tenha cá minhas dúvidas se não seriam descobertos mesmo sem esse “empurrão” literário.

Mas há muitos anos fui deixando de lado a ficção científica. E por um motivo dos mais simples: é que a ciência tornou-se tão fantástica que ela mesma produz a melhor ficção a seu respeito. E isso não é de hoje: basta ter alguns rudimentos da física quântica, probabilística, noções da incerteza, de Heisenberg, buracos negros, cordas e super-cordas, expansão do universo e coisas assim para se convencer que estamos perfeitamente imersos num mundo de sonhos, tão fantástico quanto o País das Maravilhas de Alice, inventado por aquele doido do Lewis Carroll.

O que me lembra uma longa conversa que tive com Ruy Guerra no bar Amarelinho, no Rio. Talvez não haja cenário mais estapafúrdio do que aquele bar, no centro do Rio, para uma conversa sobre…física quântica. E no entanto era sobre isso que falávamos, entre um chope e outro, para surpresa e talvez consternação das nossas mulheres. Ruy, que é amigo pessoal de Gabriel García Márquez, e leitor voraz de literatura, além de escritor de mão cheia, me disse que quase não lia mais ficção. Só ciência. E esta lhe abastecia plenamente a imaginação.

Diante da ousadia da ciência contemporânea, a ficção científica tornou-se obsoleta. O que não que dizer que não devemos render homenagem a quem soube trabalhar na fronteira do pensamento, propondo coisas ainda não existentes e idéias ainda não pensadas. Como Clarke.

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